Velhas impressões para um novo mundo

Como o vício pelo celular vem mudando nossa realidade

Alexandre Dias Ramos é editor

Pelo visto, o mundo vai acabar (pra humanidade) antes mesmo do colapso ambiental. Nossa contemporaneidade não vai bem, e as guerras, campos de refugiados, escassez de água e comida para um terço da população do globo e a incrível insistência em ignorar os erros do passado fazem qualquer coach-semi-esotérico-empreendedor-de-si-mesmo parecer um completo idiota. Mas, dependendo de quem você segue nas redes, tudo isso faz sentido, desde que você faça yoga próximo a um penhasco com vista idílica ou na beira de uma piscina com borda infinita, claro.

Não é necessário nem sair de casa pra tudo isso, basta ligar a telinha iluminada, de manhã, de tarde e de noite, e sua vida terá um pouco dessa satisfação. Fosse há poucos anos atrás, uma pessoa que passasse duas ou três horas na frente de um celular seria considerada com um quadro preocupante – havia inclusive o nome de uma síndrome pra isso –; hoje, quando até mesmo os médicos não saem das redes sociais, usar cinco ou seis horas de sua vida diária no celular é considerado normal. Enfim, cada um faz o que gosta, mas o fato é que a sociedade tem mudado… já mudou, e rápido.

Em matéria ao jornal Nexo, a jornalista e escritora Januária Cristina Alves nos fala da importância da experiência real, da leitura dos livros e da conversa presencial para se defender do superficialismo do mundo digital. Precisamos reaprender a nos conectar… com a vida real. No texto, Januária cita a atriz Denise Fraga, que diz algo muito importante: “Vivemos tempos turvos que nos convidam diariamente ao isolamento, ao medo do convívio e ao individualismo. Uma espécie de epidemia melancólica que nos tem aprisionado atrás de nossas telas geniais, que nos conectam e distanciam em alternância estroboscópica num abismo de encantamento e retórica (…). Tenho a impressão de que cada dia nos distanciamos mais da potência que poderíamos ser se estivéssemos realmente conectados e acredito que o teatro ainda é capaz de promover este milagre. Todos nós aqui, nesta sala, celulares desligados, escutando o silêncio, a respiração, a risada do outro”.

O teatro, os livros, a conversa de bar, o encontro para ouvir música e conversar, esses prazeres eram meio óbvios até dez ou quinze anos atrás, mas, de repente, e numa velocidade inimaginável, esse modo vintage de viver parece que perdeu o sentido, e todos passaram a “existir” dentro de suas telas de celular. Sim, parece que todas as imagens e informações do mundo estão lá dentro, só que não. O mundo, cada vez mais editado, filtrado, manipulado, mostra uma realidade muito pouco real. Resultado: a falta de interação com a vida que passa e a crescente epidemia melancólica da sociedade – muito bem colocada por Denise –, que contamina, hoje, todas as idades e classes sociais, têm anulado o convívio verdadeiro entre as pessoas.

Comparo o vício da tela ao alcoolismo. Entendo que há diferenças biológicas envolvidas – não sou, nem de longe, um especialista em nenhum dos dois assuntos –, mas vejo na prática que seus dependentes não conseguem mais ver o quanto sua entrega pessoal ao vício afeta as pessoas e o ambiente à sua volta. Impossível falar, impossível convencer alguém de que sua escolha autodestrutiva também corrói seu entorno. Digo escolha, mas essa é, sem dúvida, uma palavra infeliz e injusta para descrever uma enorme indução social arquitetada algoritmamente para criar dependência. Sem contar os fatores psicoquímicos, guiados pelo poder da serotonina. Até onde a força de vontade consegue combater o vício?

Acredito que estamos num momento importante de inflexão social, quando valores e modos de interação cultivados por séculos, por gerações e gerações, têm sido substituídos por pequenas e múltiplas satisfações momentâneas, guiadas por duas ou três grandes multinacionais de tecnologia. Se George Orwell, Aldous Huxley, Kafka, Camus e Saramago estavam certos? Sim, infelizmente estavam.

Ainda não sei bem o que fazer com as pessoas ao meu redor – não temos como forçar ninguém a voltar ao velho Nokia, hahaha –, mas entendo que caminhamos para um estado de dependência artificial sem volta. O que consigo, hoje, e pensando que ainda tenho pelo menos 30 anos pela frente, é aproveitar as pequenas belezas da vida cotidiana (e aqui remeto ao filósofo Heidegger): o brilho do sol no mar, a ave que atravessa o céu, a pessoa que passa na rua ou o som dos músicos da estação de metrô. Talvez essas coisas ainda existam daqui alguns anos, mas não existirão pessoas capazes de admirá-las; então, aproveito o que posso o privilégio de ser a última geração que pegou os tempos do LP, da fita cassete e, depois, do surgimento desse incrível uni/multi-verso digital, que aproxima e distancia nossas vidas de todas as coisas do mundo.

Sobre Alexandre Dias Ramos (33 artigos)
Alexandre é editor-chefe do Jornal de Toronto, mestre em Sociologia da Cultura pela FE-USP, doutor em História, Teoria e Crítica pela UFRGS, e membro-pesquisador da Universidade de São Paulo. É editor há 20 anos e mora em Toronto, Canadá.

1 comentário em Velhas impressões para um novo mundo

  1. A atual geração não tem o prazer, como tive ao receber meus primeiros salários, ainda adolescente, de maravilhar-se e fazer escolhas em lojas de discos e bancas de revistas!

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