Resiliência e aprendizagem

Pesquisa mostra como foram as experiências emocionais de brasileiros no Canadá e seus familiares no Brasil durante a pandemia

Foto: Mircea Iancu.

Margareth S. Zanchetta é enfermeira e professora & Mavi G. M. M. Blotta é pesquisadora associada, ambas na Toronto Metropolitan University

Segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a capacidade de transmutar sofrimentos em situações suportáveis faz parte da constituição histórica da natureza do povo brasileiro. Em 2021, realizou-se uma pesquisa sobre experiências emocionais durante a pandemia de Covid-19 com 480 brasileiro(a)s respondendo a questionários online e participando de entrevistas remotas. Nas narrativas de 70 entrevistado(a)s vivendo no Canadá e 23 de seus familiares no Brasil, identificou-se um modo único de reagir às experiências difíceis. Descortinou-se nas entrevistas uma forte tendência para aprender o novo, o nunca experimentado, e, quase sempre, o que era temido. O aprendizado em 12 áreas interconectadas é ilustrado abaixo:

  1. Percepção e Valorização do tempo: A pandemia [isolamento] nos tirou do ritmo super acelerado e nos ensinou a ficar no presente, reavaliar prioridades.
  2. Perspectivas / Mudanças / Equilíbrio trabalho-vida: Aprender a dar valor a muitas coisas que a gente não vê ao nosso redor e que esquecemos de dar atenção (uma flor, um amigo, uma palavra).
  3. Autoconhecimento e Autocuidado: Buscar sempre se instigar e provocar intelectualmente, não ter medo de se visitar: escrita e reflexões pessoais ajudam em suas catarses. Na pandemia, teria escrito e falado menos, a fim de evitar desconfortos desnecessários, fazer as coisas com mais calma – menos ímpeto e mais calma.
  4. Empreendedorismo: Perceber o momento como uma janela de oportunidades, sustentabilidade e aproveitaram para estudar e aprender a investir seus recursos em um novo empreendimento, principalmente daqueles com serviços de entrega em domicílio.
  5. Tecnologia e Comunicação: Reuniões/videochamadas diárias foi um novo hábito aprendido.
  6. Relacionamentos: Estar/morar fora trouxe mais tolerância, um olhar livre de preconceitos, possibilidade de compartilhar experiências.
  7. Artes, Criatividade, Hobbies: A pandemia foi uma oportunidade pessoal para desenvolvimento de habilidades que estavam esquecidas ou nem trabalhadas… aprender a tocar instrumentos (piano), criar músicas, se tornar artesão.
  8. Educação e Informação sobre a Pandemia: Estar bem informado, consciente da realidade pandêmica (“reality check”) e ter noção das nossas limitações, foram importantes para controlar emoções desconfortáveis na pandemia.
  9. Saúde Mental: Ressignificar as experiências, encontrar o lado positivo e se ancorar na fé.
  10. Espiritualidade e Religiosidade: Pandemia traz um exercício de “começar a pensar os porquês de a gente estar aqui”, reconhecer conquistas pessoais e ganhos neste contexto.
  11. Família e Relações Familiares: A celebração e a experimentação de momentos saudáveis em família, como a comemoração de aniversários e outros eventos, como encontros online para um churrasco.
  12. Lidar com Perdas e a Morte: A pandemia, de forma cruel, ensinou a lidar com a morte e a perda, muitos perderam amigos e entes próximos.

Brasileiros resilientes conscientemente desenvolveram habilidades intelectuais, afetivas e manuais, despertando motivações, potencialidades e reafirmando a essência da determinação pessoal e familiar. A aprendizagem ocorreu, em sua maioria, no domínio afetivo em relação à nova autopercepção, consciência e espiritualidade ampliadas, novas prioridades de vida, pensamentos humanistas renovados, maior valorização do tempo, da vida, das relações interpessoais, para citar alguns. Nossa identidade cultural nacional enraizada na sublimação e resiliência serviu de suporte para a esperança em ultrapassar barreiras, criar horizontes e maneiras de ser.

 

Para saber mais:

Agradecimentos às seguintes entidades e pessoas pela ajuda no recrutamento dos participantes: Consulado Geral do Brasil em Toronto, Conselho de Cidadania de Ontário, Montreal e Winnipeg, Câmara de Comércio Brasil-Canadá, Jornal de Toronto, Mara Moura, e dezenas de voluntários anônimos.

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