Escolas deveriam incluir educação financeira
José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto
Se educação financeira fosse incluída nos currículos escolares, o nível global de estresse certamente diminuiria e muitas pessoas teriam um sono melhor. Afinal, pode se considerar este um assunto manjado e batido, mas o fato é que só o programa Desenrola Brasil, lançado em julho deste ano pelo governo brasileiro, já ajudou 3,5 milhões de inadimplentes a terem melhores condições para pagar R$27 bilhões em dívidas. Isso, bilhões. Outras oportunidades de negociação de menor porte já ocorreram periodicamente e, aqui no Canadá, muitos também recorrem à consolidação de dívidas, sendo conhecidos os frequentes anúncios na mídia de locais que oferecem este serviço. Alguns chegam a lançar mão da possibilidade extrema de declarar bancarrota, mas sempre é aconselhado evitar esta medida a todo custo, pelos efeitos colaterais negativos quem causam no crédito da pessoa ao longo da vida.
Mas, afinal, como as pessoas enfiam-se em um buraco de dívidas das quais não conseguem mais sair sem ajuda? Claro que os baixos salários têm um papel importante nisso e que, por isso, inclusive pessoas muito organizadas financeiramente também acabam entrando em apuros, por um problema de saúde na família, desemprego, etc. Mas a falta de uma abordagem já na escola sobre educação financeira faz com que muitos toquem a sua vida como um filme, onde no final sempre tudo acaba bem, e não dão importância à bola de neve na qual suas dívidas estão se transformando. Os conselheiros na consolidação de dívidas aqui no Canadá são, para muitos, a primeira oportunidade na vida de entender que o orçamento familiar deve merecer o mesmo rigor que se dá a um orçamento de uma empresa ou órgão governamental.
E qual é a diferença? É que os compradores profissionais não se deixam levar pela emoção, que muitas vezes nos leva às piores compras, das quais nos arrependemos logo em seguida. Assim, por exemplo, sabemos que os experimentados vendedores de telemarketing, com seu grande poder de persuasão, acabam convencendo em minutos você a fazer uma dívida imensa por um belo elefante branco. Basta pensar um pouco ou conversar com alguém ao desligar o telefone para cair em si e arrepender-se. Também há grandes vendedores na mídia, e você acaba comprando um carnê do Baú da Felicidade jurando que vai ganhar muitos prêmios. E ainda há vendedores disfarçados, como pregadores que garantem que aquela garrafinha de água de mil reais, supostamente vinda da extrema direita do Saara, faz enriquecer – e o pregador ainda prova na justiça que é verdade, afinal, ele ficou milionário as vendendo. Já os compradores…
Os conselheiros de consolidação ensinam que se deve manter o orçamento familiar no papel, e que toda a família deve comprometer-se com ele. Ali deve-se elencar todas as despesas fixas do mês, com o seu valor (aluguel, luz, água, internet, celular, etc), com o cuidado de não se esquecer sequer do barbeiro. Depois dessas, que possuem um valor relativamente estável, começa a se colocar despesas em que se pode jogar um pouco com o valor, como alimentação – basta comer menos fora e evitar as gulodices no supermercado para o custo cair. Com o que sobrará é que se pode planejar extras, como lazer e vestuário. Aí, é seguir à risca o planejado. Hoje, os cartões fazem parte da nossa vida, mas antes até sugeria-se sacar todo o dinheiro no banco e colocá-lo em envelopes, cada um com sua finalidade. Se acabou, não se faz mais compras naquele item naquele mês. O “eu mereço”, “todo mundo vai” e “a vida é uma só” são ótimas desculpas para você endividar-se até perder o controle. O que vale mais, seu curto prazer ou a paz de saber que o navio não está afundando?
Na verdade, na lista de itens do orçamento doméstico deveria incluir-se o item “poupança”, sendo o dinheiro destinado a isso o primeiro a ser retirado logo após o recebimento do salário, antes que surjam as mil e uma tentações para gastá-lo. Memo com um baixo salário, um pequeno valor deixado à parte será um estímulo e uma segurança para qualquer dificuldade, não desestabilizando o planejamento mensal. Afinal, receita extra raramente aparece, mas despesas de emergência volta e meia batem na nossa porta.
Ao primeiro sinal de que suas dívidas estão se amontando, busque ajuda para uma renegociação. É necessário dar um basta antes que as coisas fiquem ainda piores. Lhe arrepia ouvir que em uma consolidação vão lhe tomar os seus cartões de crédito? Pois deve lhe arrepiar muito mais os juros que você pagará se não tomar providências. As conhecidas financeiras de esquina do Canadá cobram taxas de juros de chorar, e os bancos no Brasil não ficam atrás, com as periódicas reportagens lembrando que estão entre as maiores taxas do mundo.
Serão esses, que ganham absurdamente com as dificuldades financeiras de milhões mundo afora, que não querem que as pessoas aprendam educação financeira? Então, reme contra a maré e faça seu controle. Será uma vida chata? Certamente que uma cerveja ou um chocolate a menos são muito menos chatos do que as discussões em família pela falta de dinheiro e as noites sem dormir.

Gostei demais!