Será que devemos lamentar o fechamento da Starbucks?

Fazendas de café certificadas são flagradas com trabalho escravo e infantil em Minas Gerais

Foto: Asael Peña_Unsplash.

Aqui temos uma matéria híbrida, com um pequeno início reflexivo do editorial do Jornal de Toronto, junto com um trecho da matéria “Starbucks: fazendas de café certificadas são flagradas com trabalho escravo e infantil em Minas Gerais“, feito pela Reporter Brasil, por Hélen Freitas e Poliana Dallabrida.

Tem sido comum ouvir as pessoas lamentando o fechamento das lojas da rede Starbucks, inclusive, pasmem, no Brasil, terra do café – mas onde, infelizmente, uma parcela da população acha mais saboroso o gosto de ficar mais perto da cultura estadunidense.

Poucos sabem, talvez, que a rede foi responsável, em cada grande ou pequeno bairro onde se instalou no mundo, pela falência de cafés locais, lugares onde conversas e sabores giravam em torno de donos e funcionários nascidos na região, que sabiam os nomes e histórias de seus clientes. Incontáveis filmes e séries televisivas falam desses ambientes acolhedores e suas mil histórias.

A história da Starbucks não é nada romântica, nem sua condução “arrasa quarteirão”, nem sua política trabalhista – não é preciso mencionar, aqueles trabalhadores demitidos dos cafés locais que faliram acabam por trabalhar na grande rede, por uma fração do salário que recebiam. Mais do que isso, a empresa utiliza-se de fornecedores e insumos advindos de práticas absolutamente irregulares, incluindo a exploração de trabalho escravo e infantil.

Foto: Lela Beltrão_Repórter Brasil.

Segue aqui um trecho da matéria sobre o que acontece em Minas Gerais:

Maior e mais famosa rede de cafeterias do mundo, com 35 mil pontos de venda em 83 países, a Starbucks mantinha em seu programa de “aquisição ética” produtores flagrados com trabalho escravo e infantil, além de cafeicultores autuados por descontos ilegais nos salários, falta de fornecimento de água potável e de equipamentos de proteção básicos para a colheita do grão.

Ao menos quatro propriedades foram palco de problemas assim enquanto ainda eram fornecedoras da multinacional americana. Os casos são retratados no relatório “Por trás do café da Starbucks”, publicado pela Repórter Brasil (disponível em português e em inglês).

O documento mostra que fazendas de café em Minas Gerais onde a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego flagrou violações trabalhistas possuem – ou possuíram até recentemente – o selo C.A.F.E. Practices, sigla para Coffee and Farmer Equity, o programa de certificação que, segundo a Starbucks, avalia fornecedores em mais de 200 indicadores ligados à transparência, qualidade, responsabilidade social e ambiental. É mais uma situação que expõe as limitações do mercado certificador. […]

As irregularidades trabalhistas no setor não se resumem à cadeia de fornecimento da Starbucks. A Repórter Brasiljá mostrou problemas semelhantes entre fornecedores da Nestlé, McDonald’s e outras grandes empresas compradoras de grãos.

Em 2022, o cultivo de café foi um dos cinco setores com maior volume de denúncias de exploração de trabalhadores no Brasil. Ao todo, 39 propriedades de café foram fiscalizadas e 159 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão.

Um dos casos destacados é o da Fazenda Mesas, em Campos Altos, onde 17 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em agosto de 2022. No grupo havia um adolescente de 15 anos e outros dois jovens de 16 e 17 anos.

O trabalho exposto ao sol ou à chuva e que exige manuseio de cargas pesadas – a saca de café pesa 60 quilos – está enquadrado na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil e é proibido para jovens de 16 a 18 anos. Já o trabalho de menores de 16 é proibido em qualquer circunstância, com exceção da categoria aprendiz, com requisitos como frequência escolar e tutoria. […]

Alojamento de trabalhadores da Fazenda Pedreira, ao fundo, e antigo tanque de gasolina utilizado para armazenar a água consumida pelos safristas. Foto: Lela Beltrão_Repórter Brasil.

As violações ocorrem num setor que está em quarto lugar em receita no ranking de receita da balança comercial do Brasil. Em 2022, foram 52,8 milhões de sacas colhidas, o que garante ao país o posto de maior exportador mundial do produto. Na ponta da cadeia, a Starbucks Corporation, que compra cerca de 3% do café produzido no mundo, registrou lucro líquido de US$ 3,2 bilhões em 2022.

Nesse cenário, não há “desculpas” para não garantir a contratação formal de safristas e seus direitos trabalhistas, diz Gustavo Ferroni, da Oxfam Brasil: “Isso não depende de uma articulação de políticas públicas, mas do próprio setor”.

Em 2020, a organização calculou em 41% a lacuna entre o salário médio nas lavouras em Minas e um salário digno, que é aquele capaz de contemplar gastos com alimentação, moradia, educação, saúde, vestuário e outras necessidades essenciais, conforme parâmetros da Global Living Wage Coalition (Coalizão Global de Salário de Bem Estar).

Leia a matéria completa da Reporter Brasil AQUI.

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