Que em 2022 os reencontros não sejam à brasileira

Mais um ano doido chega ao fim e um novo ano começa

"Amigos". Ilustração de Valf.

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Mais um ano doido chega ao fim e um novo ano começa, e assim sendo eu mais uma vez venho humildemente falar um oi e desejar feliz ano novo. Mas é só isso mesmo, de resto não tenho nada pra contar.

O ano de 2021 foi melhor que 2020, mas isso porque todo mundo se encheu e resolveu arriscar mais a partir do meio do ano, quando a vacina chegou à maioria das faixas etárias. Mas seguro mesmo, ainda não era. O número de eventos, viagens e atividades continuou reduzido, mas pelo menos permitiu que pessoas envolvidas em relacionamentos, já de saco cheio de seus parceiros, pudessem fazer um intervalo nas brigas pra poder dar uma volta na rua, retomando a normalidade do quebra-pau após o retorno à vida de confinamento. Mas o amor, essa pilastra forte que sustenta o lar, vira giz na hora de sustentar barraco, e assim muita gente nem voltou: brigou feio, separou, e agora temos que conviver com as mídias sociais cheias de fotos de divorciados fazendo suas tradicionais caras e bocas. Quer descobrir quem separou? Vá no seu Instragão e procure quem tá fazendo biquinho ou tirando foto de sunga.

Como sempre faço no fim de ano, fui para o Brasil visitar a família e os amigos, mas tudo dentro do permitido pelo escasso período de férias oferecido pelos empregadores canadenses. Assim sendo, a gente já chega ao Brasil avisando a todo mundo que tá na área, mas que o tempo é curto então vamos nos encontrar logo. Todo mundo anima, mas ninguém marca data. É o famoso “vamos encontrar uma hora dessas” do brasileiro: nunca dá em nada. A frase e sua tradução para o português clássico (a saber: “Nem que sejas o último dentre os vivos a caminhar sobre a Terra, jamais hei de encontrar-te”), já é patrimônio imaterial da nossa cultura, uma tradição que se mantém viva no coração enrolador de todo brasileiro.

Mas passam-se os dias e nós, desrespeitando as nossas tradições e abraçando essas coisas de gringo, realmente tentamos combinar alguma coisa de verdade! Vê se pode… Como dizia meu avô, “aí virou a Dinamarca”, é o fim dos nossos costumes mesmo. Bom, mas daí a disponibilidade de data/horário dos convidados não bate com a nossa naquele dia, e somos obrigados a utilizar mais uma pérola do cancioneiro nacional: a famosa “depois a gente combina então”, que adaptada do latim significa “Podem as galinhas desenvolver presas que, ainda assim, jamais haveremos de nos ver outra vez”.

Passam-se mais uns dias, ninguém fala com ninguém, e você volta pra casa. Seu amigo continua lá na dele, sem abanar o rabo. Daí você posta alguma coisa nas mídias sociais que mostra que você já voltou ao Canadá: ah, pronto. Logo o primeiro comentário é do amigão, indignado que você foi embora sem vê-lo! O povo no Brasil realmente acha que a gente chega lá, deita na cama e fica à toa jogando dinheiro da janela pra molecada pegar na rua, com todo o tempo do mundo pra marcar boteco no dia em que Sua Excelência estiver disposto. Ninguém imagina que a gente tem que sair com mãe, visitar tia, fazer compra, ir a médico ou dentista… E então, o que fazer? Xingar o amigo? Nada disso, basta se ater aos nossos hábitos ancestrais. Diga “Da próxima vez a gente encontra”, o que mais uma vez não é verdade. Pois ele responderá que está tudo bem – a primeira frase sincera dessa conversa toda, pois afinal não queria te ver mesmo, falou só por respeito à tradição.

A verdade é que são muito poucos os que realmente têm algum interesse em saber como anda a nossa vida. Que, convenhamos também, de interessante não tem nada. Só porque a gente mora fora, acha que o mundo está doido pra ouvir nossas aventuras, né? Mas que aventura? Ir ao Costco? Ir à festa no inverno onde 700 pessoas ficam socadas dentro de casa e uma ida à geladeira é o mesmo que atravessar a arquibancada do Mineirão na hora do intervalo? No fim, eles devem estar certos.

Chega, já falei demais. Um excelente 2022 pra todos vocês. Aos que sempre acompanharam meus escritos desde as antigas, eu agradeço de coração e peço desculpas por esse meu bloqueio criativo e sumiço. Já se vão 18 anos desde que comecei com as colunas aqui em Toronto, portanto além da pandemia que nos trancou em casa e matou os assuntos, ainda tem o fator Véio Chato pra eliminar a inspiração e substituí-la por reflexões do tipo “Essa fornalha do aquecimento tá fazendo um assovio esquisito”.

E o Galo? O Galo ganhou.

Adeus, cinco letras que choram.

Ilustração de Valf: https://www.instagram.com/valfredo_macedo/

Sobre Cristiano de Oliveira (30 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

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