Saída de brasileiros bate recorde em 2021

Número de brasileiros no exterior passou de 1,9 milhão em 2012 para 4,2 milhões hoje

Foto: Gustavo Maximo.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Quem diria que o Brasil, conhecido por atrair tantos imigrantes do mundo inteiro, especialmente no século 19, iria fechar 2021 com um recorde no sentido inverso, com uma saída recorde? O número de brasileiros no exterior passou de 1,9 milhão em 2012 para 4,2 milhões hoje; ou seja, com este crescimento de 122%, cerca de 2% dos brasileiros hoje vivem fora do Brasil. Além de ser um movimento inédito, representa a maior diáspora da história brasileira.

A expressiva saída do Brasil deve contribuir para 2021 ter um marco simbólico nas estatísticas: será a primeira vez em quase duas décadas que o número de jovens entre 15 e 29 anos não chegará à marca dos 50 milhões, segundo as projeções do IBGE. Apesar de o fato já ter ocorrido em 2002, na década de 2010 o Brasil teve mais jovens do que nunca na sua história. Nos próximos 40 anos, com a baixa na queda de natalidade e a emigração, a tendência é de que o número de brasileiros jovens caia pela metade até o final do século – o que é um pânico para a previdência social, que contará com muito menos gente contribuindo para a aposentadoria de um crescente número de idosos.

A debandada, por sua vez, só tende a crescer: se em 2014 20% dos jovens de 15 a 29 anos gostaria de deixar o Brasil, hoje já chega a 47% – e dentre aqueles com nível superior, o índice chega a 56%. Um dos fatores é o de que esta faixa etária é duramente atingida em períodos econômicos ruins, como o atual. Com a pandemia, cerca de 25% dos jovens passaram a se enquadrar na categoria “nem-nem” (nem estudam, nem trabalham), em um recorde histórico. E não por preguiça: 70% dizem que é difícil conseguir emprego. Com isto, a saída passa a ser o aeroporto.

A falta de oportunidades profissionais é apenas um dos motivos que levam os brasileiros a sair do que chamavam de “país do futuro”. A economia estagnada, as altas da inflação e do dólar e a falta de perspectivas para os jovens são desanimadoras. Atrás disso, a instabilidade política desde 2016 tem gerado uma contínua queda na confiabilidade no país, não só para os investidores estrangeiros, mas também para os próprios cidadãos brasileiros. Outro fator é o desmonte atual da ciência e da tecnologia, que induz aqueles que têm formação acadêmica a pensar em alternativas fora do Brasil, especialmente àqueles que mantêm o desejo de prosseguir em um ambiente universitário ou de pesquisas. Além disso, há a velha questão da violência urbana, que vai piorando com o empobrecimento da população, e que alimenta o desejo de uma vida mais tranquila, sem tanta preocupação com a segurança.

Sendo a América do Norte o destino de 46% dos brasileiros (seguida de Europa, com 31% e América do Sul, com 14%), o Canadá desponta como país de destino, com sua política acolhedora a imigrantes e regras claras de imigração, ao contrário do vizinho Estados Unidos. O Brasil já é o décimo país como fonte de imigrantes para o Canadá, bem atrás de Índia (de onde vem 23%), China (9%), Filipinas e Estados Unidos. Também estamos atrás de Nigéria, Paquistão, Síria, França e Irã, mas, com 3.695 imigrantes admitidos em 2020, chegamos a 2% do total.

É um grande crescimento desde 1987, quando se considera o início oficial da imigração do Brasil para o Canadá, com a grande leva que chegou antes da entrada em vigor da necessidade de visto. Hoje se nota uma grande diferença de perfil do imigrante brasileiro em relação ao passado, com o Canadá aprovando somente os altamente qualificados. Também começa a haver uma maior distribuição de brasileiros por todo o território do país, antes muito concentrada nas grandes metrópoles. Com os programas de imigração provincial, hoje se encontra brasileiros até mesmo em pequenas cidades do Atlântico canadense ou da região das pradarias.

Com certeza, o Brasil vai se ressentir no futuro com o atual processo de perda de cérebros, que poderiam estar contribuindo para o crescimento do país, mas que não valorizou devidamente, após estes investirem longos anos em sua formação.

Sobre José Francisco Schuster (63 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

1 comentário em Saída de brasileiros bate recorde em 2021

  1. Amei! Muito bom artigo!

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