6 _ A sensação de isolamento

Da série “Amanda Pro Canadá”

Foto: Rodrigo Fessel Sega.

Rodrigo Fessel Sega é sociólogo pela Unicamp

Da série “Amanda Pro Canadá

Ao embarcar para o Canadá em meados de 2013, no aeroporto, Amanda fez sua primeira publicação em seu blog “Amanda Pro Canadá”. Foram dois anos de escritas intensas e empolgadas, de amizades, textos sobre viagens e imagens de sorvetes. A partir de 2016, as postagens começaram a ficar mais esporádicas. Passou a tomar gosto mais pelos vídeos do que pelas palavras. Acostumou-se a filmar com o smartphone as cenas corriqueiras de seu cotidiano: roupas de frio, comida para as crianças, viagens inclusive ao leste do país. Em uma dessas viagens, no inverno de 2019, percebeu que acampar com dois bebês envolve muito planejamento e imprevistos.

Uma vez, Amanda havia encontrado em um site, por indicação de uma amiga brasileira que também morava na mesma província, uma cabana que era idêntica à casinha vitoriana com a qual havia sonhado no passado, em frente a um lago que refletia a paisagem bucólica das coníferas. Olhou para o teclado e sentiu-se realizada por ter chegado onde chegou, apesar de nunca ter ido àquele camping em específico. Decidida, avisou ao marido que gostaria de fazer uma viagem ainda aquele mês, aproveitando o fim do inverno.

Foto: Rodrigo Fessel Sega.

Duas semanas depois, foram ao norte de Toronto, em uma famosa estação de esqui. Um dos gêmeos estava mais irritado do que o normal e um pouco quente. Amanda fez vários vídeos, filmando os planejamentos para a viagem, mas, ao chegarem ao destino, desistiram e voltaram a Toronto, pois a febre do bebê não diminuía. No dia seguinte, Amanda decidiu postar os vídeos iniciais no Stories e gravou uma explicação engraçada sobre o acontecido. Estava com olheiras e não penteou o cabelo de propósito, deixando evidente que aquela noite não fora de turismo. Desligou a câmera e publicou no Instagram.

Enquanto desviava o olhar dos filhos, repensou nos rumos que sua vida havia seguido. Amava os filhos e o marido, mas se sentia presa àquela casa isolada pela neve. Olhou através da janela e viu que a neve havia derretido. Observou durante um tempo a lama escorrendo pelas laterais da calçada da vizinha. O céu continuava cinza. O filho emitiu um grunhido baixo. Amanda suspirou e agradeceu por ele estar melhorando.

Olhou para fora da casa novamente, na esperança de que conseguisse duas vagas na mesma creche para os filhos, assim poderia começar a pensar em fazer alguma atividade. A imagem do Starbucks em que trabalhava em São Paulo foi resgatada rapidamente pela sua memória, num misto de nostalgia e ansiedade. Lembrou-se de suas amigas. Olhou para a neve e pensou “Trabalhar no quê?”. O telefone vibrou. Era sua vizinha brasileira, outra imigrante como ela, mandando uma mensagem no Inbox do Instagram, perguntando se o bebê estava bem. Amanda respondeu que sim – ele estava bem melhor.

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