Os aspectos culturais como influenciadores da saúde

até no banho

Foto: Semevent_Pixabay.

Gui Freitas é colunista do Jornal de Toronto

Outro dia, vi na internet uma polêmica envolvendo a fala de um ator que afirmava que seus filhos só tomavam banho quando estavam aparentemente sujos. Parei para ler a discussão em um site brasileiro. Todos muito surpresos e indignados. Talvez, se eu ainda tivesse apenas a experiência de viver no Brasil, um país tropical, também acharia absurdo; mas, após quase dois anos vivendo no Canadá, convivendo com pessoas de várias nacionalidades, várias culturas de vários continentes, avalio de outra forma.

No Brasil, a criança nasce e toma banho. Já chega limpa e cheirosa para o colo da mãe; já no Canadá, as mães são orientadas a dar banho completo só após a primeira semana de vida. Ambas estão corretas. Durante a gestação, o bebê está em uma temperatura estável. De repente, ele nasce e tem que se adaptar às variações de temperatura. Enquanto no Brasil a temperatura ambiente muitas vezes é tão alta que o recém-nascido tem que aprender a resfriar o corpo antes de aprender a reter o calor, no Canadá, as temperaturas podem ser muito negativas, e qualquer perda de calor deve ser evitada para preservar a integridade do indivíduo.

Esse é apenas um exemplo de como o lugar onde a pessoa vive influencia seus hábitos de saúde. E não podemos nos fechar e acreditar que na medicina existem verdades absolutas. O que é muito usado por uma população pode não funcionar para outra, seja por fatores climáticos, geográficos, genéticos, e até religiosos e culturais. É normal reproduzir os hábitos aprendidos. E assim, ouvimos histórias de brasileiros que congelaram o cabelo por sair com ele molhado no inverno, porque tem o hábito de lavar o cabelo todas as vezes que toma banho, ou da pele que ressecou tanto que sangrou, por retirar excessivamente a camada de proteção nos três banhos que toma por dia.

Concluindo, o que pode ser um hábito muito saudável para um povo, pode não ter os mesmos efeitos em outra população. Isso vale para o banho, alimentação, medicações e uma miríade de variáveis. E esses aspectos são relevantes tanto para o paciente, que deve ter sua mente aberta para novas recomendações, quanto para os profissionais de saúde, que devem compreender, acolher e auxiliar a ressignificar os novos hábitos. 

Sobre Gia Freitas (15 artigos)
Gia é brasileira, médica pediatra, esposa e mãe de dois filhos. Vivendo em Toronto, na eterna jornada do auto-conhecimento. Apaixonada e idealista, tem na leitura seu refúgio e na escrita sua liberdade.

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