Cuidando do cuidador

Quem está lá para reconhecer nele um ser humano que também está experienciando suas perdas pessoais?

Imagem: Fernando Zhiminaicela.

Gui Freitas é colunista do Jornal de Toronto

No Canadá, muito se tem falado e valorizado o papel dos “frontline workers”, os profissionais de saúde que estão na linha de frente no combate à pandemia do Covid-19. Infelizmente, no Brasil, não vemos essa mesma atitude. Há 18 meses eles estão sem descanso, lidando com angústias profissionais, fazendo escolhas difíceis, sentindo a limitação de sua condição humana, em um sistema de saúde que já era sobrecarregado, muitas vezes com salários atrasados e vivendo as próprias crises pessoais dessa pandemia.

Na faculdade é ensinado a praticar o cuidado usando as melhores práticas estudadas, proporcionando um olhar integral e humano ao paciente, respeitando suas crenças e seus limites. Mas quem cuida do cuidador? Quem está lá para reconhecer nele um ser humano, que também está cansado, inseguro e com medo? Que também está experienciando suas perdas pessoais? Qual tempo ele tem disponível para cuidar de si, com os serviços médicos exigindo deles horas-extras, a família requisitando o membro referência no assunto para resolver todas as questões de todos os seus integrantes, do agendamento de uma consulta à dispensação da medicação. E ainda se preocupar em quem vai acompanhar a aula online do filho enquanto ele trabalha, ou se ele pode estar levando a doença para seus pais idosos. Perder todos os dias um novo paciente, e muitas vezes saber que fez o melhor que podia dentro das condições que tinha, mas não dentro de tudo o que poderia ter sido feito. Se sentir impotente dentro de sua própria limitação humana.

O profissional de saúde precisa ser cuidado. É urgente que ele seja visto com amor e empatia, assim como cada paciente quer ser visto. Compreender que ele é humano, que também está se deparando com uma realidade dura e exaustiva. Construir uma rede de apoio tanto para as coisas práticas e operacionais, como para a demanda emocional que essa pandemia impõe. Ele também precisa de terapia, de massagem, de autocuidado. Precisa se olhar no espelho e não enxergar apenas as olheiras e as marcas dos equipamentos de proteção. Precisa de espaço para chorar as tristezas e para rir das coisas simples da vida, e se sentir respeitado como indivíduo.

Um ano e meio após o início da pandemia, começamos a sentir uma centelha de esperança que o fim pode chegar. No Canadá e em algumas outras partes do mundo a vacinação está progredindo, o número de casos novos e a mortalidade diminuindo, o comércio reiniciando sua abertura aos poucos. As pessoas estão se readaptando e se reconstruindo após esse período. Mas não podemos acreditar que tudo acabou. Temos ainda um caminho longo pela frente cuidando daqueles que não deixaram de cuidar de todos durante esse período.

Sobre Gia Freitas (15 artigos)
Gia é brasileira, médica pediatra, esposa e mãe de dois filhos. Vivendo em Toronto, na eterna jornada do auto-conhecimento. Apaixonada e idealista, tem na leitura seu refúgio e na escrita sua liberdade.

1 comentário em Cuidando do cuidador

  1. Excelente artigo, Gui! Eu venho sentindo isso em relação aos meus médicos… quem cuida deles? Força a todos os médicos que estão no front.

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