Empreendedorismo imigrante brasileiro no Canadá: alguns achados de pesquisa

Rede de relacionamentos é o principal desafio

Michel Mott Machado é pós-doutor em Business & Society pela York University

No dia 9 de novembro de 2019, foi publicada, no Jornal de Toronto, a matéria “Um olhar para o empreendedorismo imigrante brasileiro no Canadá”. Naquela ocasião, a referida publicação foi uma maneira de buscar uma comunicação com a sociedade, como um dos desdobramentos a partir da pesquisa que se encontrava em andamento junto ao Business & Society Program – York U., cujo projeto contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). No dia 19 de agosto de 2020, foi dado a saber que a matéria já tinha obtido 1.055 leitores até então, o que vinha a expressar um grande interesse do público pelo assunto.

Do segundo semestre de 2019 até agora, como se sabe, muitas coisas estão a acontecer, algumas delas doloridas, como a pandemia do Covid-19. Porém, não paralisamos o trabalho de pesquisa, sendo que de lá para cá, trabalhou-se para chegar a alguns achados e conclusões. Curiosamente, no mesmo dia 19 de agosto, participei do “Fórum Educação Empreendedora Frente às Crises 2020”, uma iniciativa extensionista de professores da FEA-USP em parceria com colegas da Universidade do Mato Grosso do Sul. Eu havia sido convidado a falar, suscintamente (5 min.), sobre o empreendedorismo imigrante brasileiro em Toronto/Canadá.

Assim, de acordo com as características desse evento, de maneira mais coloquial e menos acadêmica, procurei contar um pouco sobre o que eu aprendi com os empreendedores imigrantes brasileiros em Toronto. Para tal, destaquei quatro desafios que esses compatriotas podem vir a enfrentar no empreendedorismo imigrante e étnico, além de apontar o que eles/as têm feito para aumentar as chances de evolução dos seus negócios.  

O primeiro desafio, tem a ver com o que se poderia chamar de “adaptação cultural”, ou ainda, a “necessidade de entender o outro”, inclusive do ponto de vista do “how to do business in Canada”. Aqui, para além do aspecto linguístico, em si, pode haver outros aspectos a serem considerados, como ter que lidar com um contexto sociocultural de menor ambiguidade, com a maneira de dispor do tempo, com uma comunicação mais direta etc.

Outro aspecto central para o empreendedorismo étnico e imigrante, parece ser a “rede de relacionamento/networking” ou, em outros termos, o seu capital social. A ideia de “networking”, nesse contexto, tem a ver basicamente com a busca de acesso a potenciais clientes e a recursos organizacionais, principalmente o recurso “informação”, tido como fundamental para nortear tomadas de decisão, em qualquer fase do negócio.

A denominada falta de “experiência canadense” ou de “histórico no Canadá” é outro desafio que se pode esperar, especialmente os newcomers. A esse desafio, aliás, pode-se atribuir algumas possíveis dificuldades, tais como: acesso ao mercado de trabalho, crédito bancário, aluguel para fins comerciais ou mesmo de moradia, entre outras.

Um outro desafio que se poderia destacar, tem a ver com a questão do “profissionalismo”, compreendido aqui como a característica típica dos bons profissionais (seriedade, competência, responsabilidade, pontualidade, eficiência, eficácia, praticidade etc.). Novamente, trata-se de perceber e de adaptar-se ao que é valorizado no contexto social-cultural-profissional do país anfitrião, principalmente quando se está a focalizar o mercado mainstream/dominante.

Ao lado desses e de outros desafios, o que os/as empreendedores/as brasileiros/as têm feito para ampliar as chances de evolução dos seus negócios? Ou seja, o que podemos aprender a partir da experiência desses empreendedores e dessas empreendedoras? Uma das principais ações vai na direção de ampliar as redes de relacionamentos (capital social), no caso, para além da própria comunidade étnica, porém sem excluí-la. Outro movimento está voltado a desenvolver/fortalecer a “inteligência cultural”, inclusive no que se refere ao “how to do business”, no Canadá. Também é notado o esforço para adaptar o produto e/ou serviço com vistas a alcançar um público mais amplo, ou seja, para além do nicho/enclave étnico, mas sem necessariamente exclui-lo. Por último, mas não menos importante, nota-se o empenho para ampliar o nível de educação (formal, não-formal e informal), com vistas a aprimorar a capacidade gerencial dos negócios.

Ainda não é possível adiantar muitos dos resultados e das conclusões da pesquisa, pois várias publicações se encontram em rigorosa avaliação por pares, tanto em periódicos brasileiros quanto internacionais. A isso, pedimos a compreensão do público para os caminhos complexos que a produção da ciência segue. Tão logo seja possível, serão trazidas novas contribuições aos nobres leitores da comunidade brasileira e lusófona em geral, para isso é que contamos com o indispensável e diligente trabalho do Jornal de Toronto.

Até o próximo encontro!

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