A pandemia vista como reality show

Seria um estranho jogo, com todos incluídos compulsoriamente, sem terem como não participar

Imagem: Alexandra Koch.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

É um curioso exercício de imaginação encarar a pandemia como se fosse um reality show – macabro, convenhamos, com mais de 900 mil mortes. Seria um estranho jogo, onde o universo teria incluído compulsoriamente como participantes todos os países da Terra – ou seja, não haveria como não participar e nem como fugir para outro lugar. A tarefa seria vencer um invisível vírus, com todos os jogadores dispondo das mesmas armas, o isolamento social e a higienização das mãos. Ninguém conta com a carta na manga de uma vacina e nem um barão, como os Estados Unidos, tem vantagem pelos seus recursos financeiros – pelo contrário, ele foi o que pior se deu. E quanto a dinheiro, ninguém no planeta estava preparado, tanto que nenhum país vai sair dessa sem imensas dívidas.

Nessa igualdade de condições, a vitória se dá por competência e estratégia. Vejam que o primeiro lance do jogo coube a China, o que deu vantagem aos demais competidores de mais tempo para se prepararem. Mesmo pega de surpresa, a China conseguiu jogar muito bem, e obteve o controle da situação ainda antes de muitos outros países. O Canadá também foi outro excelente jogador, tomando medidas a tempo e com o próprio primeiro-ministro, sozinho (isolamento é importante!), se apresentando diariamente diante das câmeras de televisão para dar um relatório da situação e das providências tomadas. Governadores das províncias e prefeitos também tiveram atitudes semelhantes, apresentando as ações tomadas nas 24 horas anteriores e recebendo cobranças dos jornalistas. Assim, o número de casos caiu significativamente e, no início de agosto, as mortes foram reduzidas a quase zero.

Enquanto isso, no Brasil, fanático por reality shows – a ponto das votações do programa televisivo chegarem à casa do bilhão –, parece que nada se aprendeu. A primeira atitude foi negar que o jogo existisse e inclusive já tivesse começado. “É só uma gripezinha”, disse o presidente em 20 de março. No dia seguinte, dando-se conta, teve a pior atitude possível: jogar a toalha e incorporar o espírito do perdedor, do derrotado. “Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer.” Trump, por sua vez, admitiu ao mesmo jornalista que relatou o escândalo de Watergate, Bob Woodward, que minimizou a ameaça do coronavírus no início da pandemia. “Eu sempre quis minimizar isso. Ainda gosto de minimizar, porque não quero criar pânico”, afirmou o presidente americano.

Bons jogadores mundo afora lançaram como estratégia rapidamente se mobilizarem para a compra dos equipamentos que lhes faltavam e apostar na ciência, em busca da vacina. Em agosto, a Rússia já havia produzido seu primeiro lote de vacinas. No Brasil, onde a universidade e a pesquisa já vinham sendo desprestigiadas desde o início de 2019, buscou-se uma “simpatia”, a cloroquina, como tal sem evidência alguma que sustente sua eficácia, além de uma conexão com o fabricante. Trump, sócio da empresa que fabrica cloroquina, também apostou nela, além da ingestão de, acreditem, água sanitária. De volta ao Brasil, outra simpatia foi sugerida pelo prefeito de Itajaí – pasmem –, a do ozônio no ânus.

Em plena pandemia, o país descobriu 40 milhões de pessoas até então invisíveis. Viviam à margem da sociedade, esquecidas. Como óbvia consequência, sobrevivem nas condições mais precárias possíveis, amontoadas em casebres que não permitem o distanciamento social e sem fornecimento adequado de água para lavar as mãos. Tornou-se, portanto, terreno fértil para a propagação do vírus. Como se não bastasse, o Brasil passou a jogar contra integrantes do próprio time, justamente os moradores originários do país; não só não houve proteção especial aos indígenas, como foram deixados abandonados à própria sorte e à morte.

O jogo ainda está, infelizmente, longe do fim, e já temos muitos perdedores – quase um milhão pelo mundo, como mencionamos. Já fica, porém, a lição de que é necessário preparar-se, tendo estrutura física pronta e profissionais treinados para enfrentar situações adversas. Mas, acima de tudo, é preciso líderes que tenham competência para jogar e que levem o jogo extremamente a sério. Para cada família, uma perda é uma imensa tragédia, com danos irreparáveis.

Sobre José Francisco Schuster (92 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

1 comentário em A pandemia vista como reality show

  1. Claudia Schiedeck // 18 de setembro de 2020 às 5:27 pm // Reply

    No Brasil, a situação é crítica. O negacionismo e o desrespeito às pessoas e ao meio ambiente são de chorar. As pessoas naturalizaram tudo que de ruim acontece no país. Parece que nada acontece de fato.

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