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A Fome, a Vontade de Comer e o Belo Rapaz com o Olho Maior que a Barriga


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Ilustração de Valf.

Valf é ilustrador e escritor

Do mesmo ventre nasceram e da mesma sina compartilharam. Uma – a Fome – moça alva de cabelo claro e olheiras pronunciadas, tinha um belo semblante. Faltava-lhe porém toda a região do abdômen. Daí a lhe chamar por Fome. A outra – a Vontade de Comer – tinha a barriga por inteiro. Não possuía a mandíbula e, da boca, só o lábio superior. E seus olhos eram olhos tristes de alguém que nunca sorriu na vida. Na convivência, o infortúnio de uma era o alento para a outra. E assim viviam da necessidade do sofrer oposto. Companheiras na miséria, acima de tudo.
Foi quando um dia chegou vindo de terras distantes o Belo Rapaz com o Olho Maior que a Barriga e cruzou o destino das irmãs. Comida era sua vida e falar dela um dos seus maiores prazeres. De suas comilanças sem fim fez alarde e para as famintas irmãs contou em tom de epopeia seus feitos gastronômicos. O dia em que comeu um rebanho inteiro com mais de 300 cabeças de gado, o pequeno reino que veio à bancarrota depois de lhe oferecer um banquete e até a sua famosa batalha contra 116 javalis selvagens pela disputa da carcaça de um animal morto. A Fome degustava cada palavra do Belo Rapaz com o Olho Maior que a Barriga como se fosse um manjar, como se suas histórias lhe satisfizessem as necessidades do alimento. E foi assim que, pelos excessos do estômago, o Belo Rapaz com o Olho Maior que a Barriga conquistou o coração da Fome… e a inveja da Vontade de Comer. Ferida e tomada pela cegueira do ciúme, ela armou contra aquele que havia roubado a atenção da irmã. Com astúcia incentivou o Belo Rapaz com o Olho Maior que a Barriga a comer a lua e beber o mar. E salivando, foi isso que ele fez. Durante 26 dias sem descanso nem trégua ele consumou sua empreitada. Naco a naco. Bocado a bocado. Pedaço a pedaço. Até o fim. Mas aquilo havia sido demais até para ele. Enfarado, embotado e quase morto, o entupido glutão mal teve tempo de se despedir da Fome antes de fenecer. Esta, pobre, chorou durante 8 dias e 8 noites… tempo que durou seu sofrer… e também morreu. E vive agora a remoer remorso a infeliz da Vontade de Comer. E o que mais lhe dói é ter até o resto da vida o estômago a roncar para lhe lembrar a palavra… fome.

Ilustração de Valf.

Este texto faz parte da série “Crônicas de vidas miseráveis“.

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