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Um cheiro de Jânio no ar


“A novidade na política é sempre uma outra forma de repetir”

Ilustração de Fabio Ludesi.

Rodrigo Toniol é colunista do Jornal de Toronto

Há uma poderosa imagem que nos permite descrever a repetição de ciclos na história e na política, a do pêndulo. Balançando ora para um lado, ora para outro, o pêndulo é um eterno retorno a posições marcadas, mas um retorno que não se repete, porque carrega os efeitos do movimento anterior. É por isso que cientistas políticos frequentemente usam a máxima “a novidade na política é sempre uma outra forma de repetir”. Passados 10 meses do governo Bolsonaro, é possível identificar algumas das repetições dessa “nova política” na nossa tradição. Na história mais recente dos presidentes brasileiros o atual se aproxima cada vez mais de um anterior, Jânio Quadros.

Ilustração de FabioLudesi.

Jânio era um político, de fato, diferente. Foi eleito pelo PTN, partido minúsculo e sem estrutura, com apoio de outras siglas, incluindo a UDN, partido forte que manejava a política nacional. Ao mesmo tempo, era um crítico ostensivo dos partidos, assim como dos políticos. A vassoura, símbolo de sua campanha, servia para lembrar da intenção de varrer o país da corrupção, da “politicagem”, termo que sempre repetia. O combate à corrupção é a face mais palpável de um político cujo apelo fundamental do discurso era o moralismo. Em seus primeiros meses de governo suas ações mais celebradas e divulgadas foram a proibição por completo do uso de lança-perfume, de concursos de beleza com maiôs considerados pequenos, de jóquei que não ocorressem entre sexta e domingo e de rinhas de galo. Jogos de azar, roupas e drogas – a base de uma política típica da direita populista.

Esses gestos, que pareciam seguros em direção a uma moralização do país, vinham acompanhados de um caos na condução da política externa e econômica.

Jânio era caos. Mas, para os eleitores que o defendiam, seu caos era integridade. Um homem que se mostra como ele de fato é, sem teatro. O caos era real. Mas era, também, teatro puro. Bradava em cima da retórica da perda, falava para as classes populares e para classe média que se reconheciam na ideia de que o país precisava do retorno da ordem, da previsibilidade, da segurança e da unidade. Não dizia como fazer isso, mas se valia da capacidade de expressar um sentimento difuso.

Terminou seu mandato renunciando. Alegou a existência de “forças ocultas” que o teriam obrigado a tal atitude. Parece haver um cheiro de Jânio no ar. No texto do próximo mês voltarei ao Jânio e suas semelhanças com o atual presidente; até porque, foi também a partir de Jânio que religião e política ficaram cada vez mais próximas da política brasileira.

Sobre Rodrigo Toniol (8 artigos)
Rodrigo é doutor em antropologia e professor da Unicamp, tendo realizado estudos de pós-doutorado na Universidade de Utrecht (Holanda); foi também pesquisador-visitante nos Estados Unidos e México. Suas pesquisas e publicações estão principalmente relacionadas com os temas de religião, saúde e ciência.

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