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Justin Trudeau reeleito e a nova dinâmica da democracia no Canadá


O partido liberal formou um governo minoritário, o que exigirá do seu líder jogo de cintura, paciência e muita capacidade de negociação.


Camila Garcia é colunista do Jornal de Toronto

Em 21 de outubro de 2019, Justin Trudeau foi reeleito primeiro-ministro do Canadá, dessa vez, em condições de governo muito diferentes do seu primeiro mandato, iniciado em 2015. O partido liberal formou um governo minoritário, o que exigirá do seu líder jogo de cintura, paciência e muita capacidade de negociação.

Atualmente, o congresso canadense é composto por 338 assentos ocupados pelos membros do parlamento (MP), onde cada um representa um distrito eleitoral no Canadá. Nesta lógica, são necessários 170 assentos para se estabelecer um governo majoritário.

Os resultados dessas eleições revelam movimento na opinião e percepção dos eleitores, seja influenciado pela ascensão da direita no contexto global, seja por decepções em promessas não cumpridas e escândalos no governo Trudeau; ou ainda, preocupação com o futuro em debates sobre mudanças climáticas e acessibilidade ao sistema de saúde e moradia.

Após exaustivas semanas de campanha, com os líderes dos principais partidos discordando entre si e trocando inúmeras farpas e acusações, chegar a esse desfecho significa que um novo quadro de desafios surge, e que o quanto antes Justin Trudeau for capaz de articular com os outros partidos melhor – neste contexto, cada voto faz a diferença e o cotidiano pode se transformar em um campo de batalha para aprovação de orçamentos e até menores resoluções.

As coalizões podem ser realizadas pelo governo ou pela oposição de maneira formal ou informal, em uma aliança caso a caso. Essa incerteza e constante sensação de que os conservadores estarão esperando qualquer oportunidade para chamar o voto de não-confiança na House of Commons resulta em instabilidade para o país. Historicamente, a maioria dos governos minoritários tiveram novas eleições federais após 2 anos de tomarem posse.

Por outro lado, para os liberais esse momento também significa a oportunidade de aprender a ouvir e ceder, ao trabalhar em parceira com outros partidos progressistas – como por exemplo com o NDP, que pretende avançar a sua agenda em seis pastas principais: mudanças climáticas, acesso a medicamentos, empréstimos estudantis sem juros, contas de celular, moradias acessíveis e tributação dos “ultra-ricos”. Essa aliança inclinaria o governo mais para a esquerda, trazendo benefícios e avanços na área social.

O líder do Bloc Québécois, Yves-François Blanchet, conseguiu reavivar e impulsionar o partido de volta ao cenário nacional, conquistando 32 cadeiras e se tornando o terceiro maior partido no congresso. De forma geral, a filosofia do partido possui dois pilares principais: separatismo e valores sociais-democratas. Entretanto, com slogans de campanha como “Quebec somos nós” (le Québec c’est nous) ou escolha um político “que é como você” (quis vous ressemblent), esses pilares foram mascarados e apresentados aos eleitores como nacionalismo, e corte de impostos e de serviços civis, e diminuição nos níveis imigratórios. Um novo sentimento separatista ameaça ressurgir e irá exigir um olhar cauteloso e apaziguador.

O NDP obteve 16% do voto popular, que foram traduzidos em apenas 24 MPs, e agora devem pressionar o governo para efetivar a reforma eleitoral para um sistema de representação proporcional, prometida por Justin Trudeau em 2015.

O Green Party conquistou um novo assento em Atlantic Canada, e afirmou estarem abertos a trabalhar com qualquer partido que cumprir com a meta estabelecida no Acordo de Paris.

Em uma disputa acirrada, Jody Wilson-Raybould garantiu a sua posição como política independente e espera encontrar um novo jeito de fazer política através de uma abordagem não partidária. Ela foi procuradora geral de Justin Trudeau, e deixou o cargo e o partido após se tornar pivô do escândalo da SNC-Lavalin. Em inúmeras situações, mesmo como independente, Jody votou com os liberais.

O candidato da ultra-direita Maxime Bernier, líder do People’s Party e representante da onda populista, nacionalista e contra-estabelecimento que se espalhou pela Europa e Américas, não encontrou espaço em território canadense. De fato, a perda em seu próprio distrito eleitoral revela que visões muito conservadoras e extremadas, em especial em relação aos temas imigratórios, não condizem com a mentalidade e discernimento da maior parte dos residentes deste país. Esse empurrão é expressivo e deve dificultar o crescimento da ultra-direita no Canadá.

Daqui em diante, as camadas mais jovens da população que se envolveram nestas eleições serão essenciais para os governantes. Na atual conjuntura dividida, a voz das ruas guia e sustenta alianças progressistas. O governo que se inicia deve ser pautado no diálogo com os oponentes e contato com as bases. Como primeiro-ministro, Justin Trudeau precisará desenvolver novas habilidades, viajar menos e fazer de Ottawa sua casa. Há otimismo e leveza no ar, mas só o tempo dirá se o sol irá brilhar.

 

Sobre Camila Garcia (11 artigos)
Camila é paulista e já trabalhou com teatro, rádio, televisão e jornalismo. Sempre de olho no universo político, adora trocar suas impressões com os mais chegados, e agora com os leitores do Jornal de Toronto. Atualmente é apresentadora do programa de televisão Focus Portuguese, todos os sábados e domingos, na OMNI TV.

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