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Entre os dois lados há todo o resto


É corrente a ideia de que o passado nos instrui sobre os caminhos a evitar e nos dá pistas sobre futuros mais ou menos promissores.

"La reproduction interdite", de René Magritte, 1937, Museum Boijmans Van Beuningen.

Rodrigo Toniol é colunista do Jornal de Toronto

É corrente a ideia de que a história é pedagógica, que o passado nos instrui sobre os caminhos a evitar e nos dá pistas sobre futuros mais ou menos promissores. Certamente poder acionar o repertório da história para analisar e tomar decisões é salutar, mas isso não garante que seja assim que as pessoas procedam. A história está aí para oferecer exemplos, nem sempre estamos dispostos a aprender com eles.

Em 1994 ocorreu um dos maiores genocídios da história da humanidade. Em Ruanda, disputas políticas e étnicas resultaram na morte de centenas de milhares de pessoas. Os números são imprecisos, mas gravitam entre 500.000 e 1.000.000 de mortos. Não cabe aqui retomar a minúcia da disputa local, mas faço referência ao caso para retomar a explicação de alguns analistas sobre o massacre. Como pode ter ocorrido, em 1994!, um genocídio com um milhão de mortos? Os caminhos explicativos são muitos, mas um deles é frequentemente acionado: a desidentificação da população. A progressiva desidentificação teria chegado em um ponto sem retorno naquele momento. Os adversários políticos toraram-se inimigos, derrotá-los já não era suficiente, era preciso eliminá-los. Não restrito ao campo político-partidário, tal desidentificação criou profundas raízes naquela sociedade.

A resultante do exemplo é extrema – trata-se de um genocídio –, mas o processo que levou até ela é bem mais próximo; afinal, a desidentificação é produzida no cotidiano, entre círculos de amizade, grupos de trabalho e na família. E a análise desses microprocessos parece ser cada vez mais pertinente para nós. Especialmente porque temos um novo ingrediente que amplia a combustão disso, as redes sociais. Essas plataformas nos convocam, por conta do próprio tipo de interação que promove e de sua lógica algorítmica, a hipertrofiar nossa perfomance política. Mesmo pessoas que no cotidiano ponderam, reavaliam, avançam e contradizem suas posições, nas redes tendem a se apresentar como mais convictas e extremistas do que são offline. Essa é a conclusão que pesquisadores dedicados ao tema têm apresentado, como é o caso de Fabio Malini e Pablo Ortellado: “Ocorre que o comportamento virtual produz efeitos de desidentificação difíceis de serem recuperados uma vez que se estabelecem. E aí está o nosso maior risco”.

Outro dado importante das análises desses pesquisadores é que os temas que geram mais engajamento na rede, isto é, os mais polêmicos, são dominados por pessoas cujas interações virtuais reproduzem posições antagônicas. Ou seja, as interações via Twitter, Facebook e WhatsApp estimulam o debate entre atores que estão posicionados politicamente em extremos opostos. Decorre disso três efeitos importantes:

1. Os debates virtuais que parecem permitir grande pluralidade de posição retratam uma disputa de extremos;

2. Esses debates desestimulam a intervenção de pessoas com posições intermediárias, que é a maior parte dos usuários;

3. A disputa particular entre esses grupos é transformada na totalidade dos debates e elimina a chance de maior identificação com posições ponderadas, que não estejam entre um extremo ou outro.

A má notícia, então, é que as redes ajudam a promover a desidentificação; a boa notícia é que a maior parte de nossa sociedade ainda está no espaço entre os dois lados.

Sobre Rodrigo Toniol (7 artigos)
Rodrigo é doutor em antropologia e professor da Unicamp, tendo realizado estudos de pós-doutorado na Universidade de Utrecht (Holanda); foi também pesquisador-visitante nos Estados Unidos e México. Suas pesquisas e publicações estão principalmente relacionadas com os temas de religião, saúde e ciência.

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