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O rei está nu


Há muitos anos atrás, havia um rei…

Ilustração de William Heath, 1913.

Hans Christian Andersen foi escritor no séc. XIX

Há muitos anos atrás, havia um rei tão profundamente apaixonado por roupas novas que gastava todo o seu dinheiro só para ficar bem vestido. Ele não se importava com seus soldados ou em ir ao teatro ou dar uma volta em sua carruagem, exceto para mostrar suas roupas novas. Usava um casaco para cada hora do dia, e as pessoas em vez de se dizer, como normalmente se poderia, “O rei está em audiência”, neste reino sempre diziam “O rei está em seu camarim”.

Na grande cidade onde ele morava, a vida era sempre alegre. Todos os dias muitos estrangeiros chegavam à cidade e, entre eles, um dia vieram dois vigaristas. Eles se apresentaram ao rei como tecelões e disseram que poderiam tecer os tecidos mais magníficos que se poderia imaginar. Suas cores e suas estampas não só eram extraordinariamente lindas, como também as roupas feitas com esse tecido tinham um poder incrível de se tornar invisíveis para qualquer pessoa que não fosse adequada para seu gabinete, ou que fosse extraordinariamente estúpida.

“Essas seriam roupas apenas para mim”, pensou o rei. “Se eu as usasse, seria capaz de descobrir quais homens no meu império são inaptos para ocupar seus postos. E eu poderia distinguir os sábios dos tolos. Sim, eu certamente preciso dessa roupa para mim logo.” Então o rei pagou aos dois vigaristas uma grande soma de dinheiro para começarem a trabalhar imediatamente.

Eles montaram dois teares e fingiram tecer, embora não houvesse nada nos teares. Toda a melhor seda e o mais puro fio de ouro que eles solicitaram foram direto para as suas bolsas de viagem, enquanto eles trabalhavam nos teares vazios até tarde da noite.

“Eu gostaria de saber como esses tecelões conseguem trabalhar com esse tecido”, pensou o rei, mas se sentiu um tanto desconfortável quando lembrou que aqueles que não estavam aptos para o cargo não poderiam ver o material. Ele não podia duvidar de si mesmo, então achou melhor mandar outra pessoa para ver como as coisas estavam indo. Toda a cidade ficou sabendo sobre o poder peculiar do tecido, e todos estavam ansiosos para descobrir quão estúpidos eram seus vizinhos.

“Mandarei meu bom e velho ministro aos tecelões”, decidiu o rei, “Ele será a melhor pessoa para me dizer como o material parece, pois é um homem sensato e ninguém faz melhor o seu dever”.

Então, o velho ministro foi para a sala onde os dois vigaristas trabalhavam em seus teares vazios.

“Que o céu me ajude”, pensou o ministro enquanto seus olhos se arregalaram, “não consigo ver absolutamente nada”. Mas ele não o disse.

Ambos os vigaristas insistiram para que ele se aproximasse para aprovar o excelente padrão e as lindas cores. Eles apontaram para os teares vazios, e o pobre e velho ministro olhou tão firme quanto pôde. Não conseguia ver nada, porque não havia nada para ver. “Que o céu tenha misericórdia”, pensou ele. “Seria eu um tolo? Seria eu inapto para ser ministro? Nunca poderei deixar transparecer que eu não consigo ver o tecido, ninguém deve saber.”

“Não hesite em nos dizer o que você acha”, disse um dos tecelões.

“Oh, é lindo; é encantador.” O velho ministro olhou através de seus óculos. “Que estampa, que cores! Vou dizer ao rei o quanto estou encantado.”

“Ficamos felizes em ouvir isso”, disseram os vigaristas. Eles começaram a nomear todas as cores e a explicar o padrão intrincado da estampa. O velho ministro prestou a maior atenção, para poder então contar tudo ao rei. E assim o fez.

Os vigaristas logo pediram mais dinheiro, mais seda e fios de ouro, para continuar com a tecelagem. Mas tudo foi para seus bolsos. Nenhum fio foi para os teares, embora trabalhassem mais duro que nunca.

O rei enviou agora outro oficial confiável para ver como o trabalho progredia e saber quão logo estaria pronto. Aconteceu com ele o mesmo que acontecera com o ministro. O oficial olhou e olhou, mas, como não havia nada para ver nos teares, não pôde enxergar nada.

“Não é uma bela peça?”, perguntaram os vigaristas, enquanto mostravam e descreviam seu padrão imaginário.

“Eu sei que não sou estúpido”, pensou o homem, “então talvez eu seja indigno do meu bom ofício. Isso é estranho. De qualquer modo, eu não posso deixar ninguém descobrir”. Então ele elogiou o material que não conseguia ver. Declarou que estava encantado com as lindas cores e o padrão primoroso. Para o rei ele disse: “Fiquei fascinado”.

Toda a cidade estava falando a respeito desse esplêndido tecido, e o rei queria ver por si mesmo enquanto ainda estava nos teares. Com a presença de um grupo de homens bem escolhidos, entre os quais estavam seus dois funcionários de confiança – aqueles que visitaram os tecelões –, o rei foi ter com os dois vigaristas. Ele os encontrou tecendo com vigor, mas sem fio algum em seus teares.

“Magnífico”, disseram os dois velhos oficiais já enganados. “Veja só, Majestade, que cores! Que desenho!” Eles apontaram para os teares vazios, cada um supondo que os outros pudessem ver o material.

“O que é isso?”, pensou o rei, “Eu não consigo ver nada. Isso é terrível! Seria eu um tolo? Seria eu incapaz de ser rei? Lamentável isso acontecer comigo, dentre todas as pessoas!”.

“Oh! É realmente muito bonito!”, disse ele. “Tens minha mais alta aprovação”, acenando para o tear vazio. Nada poderia indicar que ele não conseguia ver coisa alguma.

Toda sua comitiva olhou fixamente. Um não viu mais do que outro, mas todos se juntaram ao rei, exclamando: “Oh! É realmente muito bonito!”, e eles o aconselharam a usar roupas feitas com esse maravilhoso tecido especialmente para a grande procissão que estava por vir. “Magnífico! Excelente! Insuperável!” eram passados de boca em boca, e todos faziam o possível para parecer bem satisfeitos. O rei deu a cada um dos vigaristas uma cruz para usar na lapela e o título de “Mestre Tecelão”.

Antes da procissão, os vigaristas sentaram-se a noite toda e queimaram mais de seis velas, para mostrar o quão ocupados estavam terminando as roupas novas do rei. Eles fingiram tirar o pano do tear, fizeram cortes no ar com enormes tesouras, e finalmente disseram: “Agora as novas roupas do rei estão prontas para ele provar”.

Então o rei veio, acompanhado de seus nobres mais nobres, e os vigaristas levantaram um braço como se estivessem segurando alguma coisa. Então disseram: “Estas são as calças, aqui está o casaco, e este é o manto”, nomeando cada peça de roupa. “Todas as peças são tão leves quanto a teia de uma aranha. Alguém poderia quase pensar que o rei não estaria vestindo nada, mas é isso que as faz tão extraordinárias.”

“Exatamente”, todos os nobres concordaram, embora não pudessem ver nada, pois não havia nada para ver.

“Se Sua Majestade Imperial concordar em tirar a roupa”, disseram os vigaristas, “nós vamos ajudá-lo com sua nova vestimenta aqui em frente ao longo espelho”.

O rei despiu-se e os vigaristas fingiram colocar as novas roupas nele, uma peça após a outra. Passaram pela cintura e pareciam apertar alguma coisa – que seria sua cauda – enquanto o rei se virava e girava diante do espelho.

“Quão bem as novas roupas de Sua Majestade estão ficando, não é mesmo?!”, ele ouviu de todos os lados; “O estampado, tão perfeito! As cores, tão adequadas! É uma roupa magnífica”.

Então, o ministro das procissões públicas anunciou: “O dossel de Sua Majestade está esperando do lado de fora”.

“Bem, devo estar pronto”, disse o rei, e se virou novamente para uma última olhada no espelho. “É um ajuste notável, não é mesmo?”, parecendo apreciar seu traje com o maior interesse.

Os nobres que deviam carregar a cauda se abaixaram e estenderam a mão para o chão, como se estivessem pegando seu manto, fingindo levantar e segurar alto. Eles não ousaram admitir que não tinham nada para segurar.

Assim foi o rei em procissão, sob seu esplêndido dossel. Todos nas ruas e nas janelas diziam “Oh, quão belas são as roupas novas do rei! Ficam tão perfeitas nele, não acham? E vejam sua longa cauda!”. Ninguém ousaria dizer que não podia ver nada, pois isso o provaria ser inadequado ao cargo, ou um tolo. Nenhum traje que o rei tenha usado antes fora um sucesso tão completo.

“Mas ele não tem nada”, disse uma criancinha.

“Você alguma vez ouviu tão inocente besteira?”, disse seu pai. E uma pessoa cochichou para outra o que a criança dissera: “Ele não tem nada. Uma criança disse que o rei não tem nada”.

“Mas ele não tem nada!”, a cidade inteira finalmente clamou.

O rei estremeceu, pois suspeitava que todos estavam certos. Mas pensou: “Esta procissão tem que continuar”. Então, ele andou mais orgulhoso do que nunca, enquanto seus nobres seguravam alto a cauda que, definitivamente, não estava lá.

Tradução de Alexandre Dias Ramos, a partir do texto original “The Emperor’s New Clothes”, escrito por Hans Christian Andersen em 1837.

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