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E quem ganha no final?


Série da Netflix mostra o lado de quem fracassou.

As animações da série "Losers", também criadas por Mickey Duzyj, descrevem parte das intrigantes histórias.

Alexandre Dias Ramos é editor

A Netflix lançou há pouco o seriado Losers, produzido e dirigido por Mickey Duzyj, que trata do ponto de vista dos atletas perdedores. Ninguém gosta de perder, e menos ainda quando se trata de esporte, quando a habilidade física e mental é avaliada pelo desempenho, aos olhos de juízes e de uma plateia. O mundo é competitivo, o mercado é competitivo, as pessoas são cada vez mais competitivas, e tudo nos leva a crer que ganhar é o único modo de viver. Tudo depende do ponto de vista, ganhar também significa deixar todos os outros para trás, e não necessariamente é uma boa coisa comemorar o fracasso alheio – como bem lembrou um amigo, no Sumô, o esporte mais respeitado no Japão, não se comemora a derrota de um adversário.

A antropóloga Katia Rubio, autora do livro Heróis Olímpicos Brasileiros (Editora Zouk), pesquisa a frustração imensa de atletas medalhistas que tiraram segundo ou terceiro lugar ou, quase pior, do vazio que ganhadores do ouro sentem na vida depois de eventos marcantes, mas que não se repetem mais. Há, na competição, um lado que não é visto – e que os cursos motivacionais no YouTube não mostram.

Ilustração de Mickey Duzyj.

Losers mostra justamente esse lado, o lado da maioria, o lado daqueles que perderam jogos e campeonatos contra todas as expectativas de pais, amigos e treinadores que depositaram esperanças em seus desempenhos. E como transformar essa frustração em lição? Melhor ainda, como ver que, na verdade, o processo gerou algo muito mais rico e duradouro?

A série, com apenas oito episódios, trata com agradável bom humor do drama de um talentoso jogador de basquete que não tinha temperamento e disciplina para competir; da mulher que escolheu seu amor pelos cães ao primeiro lugar no pódio de trenó; do corredor que fez de sua quase-morte a obstinação para continuar sua maratona; do pior time de futebol do campeonato, ameaçado de perder até mesmo o último lugar; e também a história de um time sempre vencedor, que por pouco não provocou o fim do curling.

Essas e outras intrigantes histórias trazem não apenas a beleza e a paixão pelos esportes, mas também a motivação genuína de quem compete, ainda que seja para perder.

No fim das contas, para os personagens dessa série, o fracasso foi seu modo magnífico de vencer.

Sobre Alexandre Dias Ramos (12 artigos)
Alexandre é editor-chefe do Jornal de Toronto, mestre em Sociologia da Cultura pela FE-USP, doutor em História, Teoria e Crítica pela UFRGS, e membro-pesquisador da Universidade de São Paulo. É editor há 20 anos e mora em Toronto, Canadá.

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