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Quem puxou o gatilho


Apesar das coincidências, é precipitado ligar a morte de Marielle à família do presidente.

Multidão acompanha a chegada do corpo da vereadora Marielle Franco à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 15 de março de 2018. Foto: Mídia Ninja.

Ronaldo Entler é jornalista e pesquisador de comunicação

Apesar das coincidências, é forçoso e precipitado ligar a morte de Marielle Franco à família do presidente. Se insistimos nisso, se condicionamos a culpa do presidente à parte mais mecânica dos fatos, minimizamos a violência que seu pensamento e seu discurso ainda produzem.

No universo de determinações desse crime, é preciso distinguir aquele que mandou matar daquilo que moveu a matar. É preciso distinguir para reconhecer a gravidade de cada um desses gestos. O segundo, apesar de simbólico, é grave justamente porque não se resume à responsabilidade por um fato do passado. Ele tem a força de um presente contínuo, de um gerúndio: aquilo que moveu a matar é também aquilo que tem movido, que continua movendo a matar.

Quando elegemos como representantes pessoas que convocam a violência como solução, que defendem o armamento da população, que elogiam torturadores, que toleram qualquer coisa por não tolerar as diferenças, então, o fato de uma mulher negra, lésbica, de esquerda, nascida na favela, que ainda se mete nos assuntos complexos da favela, que coloca o dedo na cara de autoridades, ser assassinada se torna um acontecimento fluido, um incidente, um destino inevitável (como a menina de minissaia que “estava pedindo para ser estuprada”); uma espécie de ajuste que a retomada da ordem exige (como a doença que mata as pessoas promíscuas) ou um dano colateral (como a criança que leva tiro por fazer um gesto suspeito num lugar em que não deveria estar). Então, mortes como essa parecem fazer sentido.

Isso fica evidente na insensibilidade que permite a um político rasgar a placa que homenageia Marielle, mas também no silêncio constrangedor daqueles que, em suas timelines, nunca deixaram de se escandalizar com a violência contra um cidadão de bem. Quando chegamos a esse ponto, umas tantas outras mortes, incluindo as próximas, já estão legitimadas.

É preciso saber quem mandou puxar o gatilho. Mas é preciso lembrar de quem é a voz e o voto que naturalizam esse gesto. Mesmo que se prenda um mandante, será preciso atuar contra o que permanecerá atuando em liberdade: o discurso de intolerância.

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1 comentário em Quem puxou o gatilho

  1. Parabéns pela lucidez e sensibilidade.

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