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As eleições brasileiras e a onda conservadora


Por que o Brasil migrou mais para a direita em 2018?


Rodolfo Silva Marques é doutor em Ciência Política pela UFRGS e professor-adjunto da Universidade da Amazônia

André Silva de Oliveira é doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco

No primeiro turno das eleições, o Brasil assistiu à surpreendente emergência de uma onda conservadora, a ponto de fazer um partido “nanico” como o PSL, de Jair Bolsonaro, conquistar 52 cadeiras na Câmara dos Deputados – atrás apenas do PT, que obteve 56 lugares. O Partido NOVO, com viés liberal, alinhado à direita e que dispensa o uso do Fundo Partidário, participou de sua primeira eleição nacional e elegeu 8 deputados federais, 11 estaduais e 1 distrital.

Outros dois exemplos podem ser citados: em Minas Gerais, em uma arrancada surpreendente, o empresário Romeu Zema, do NOVO, estreante em política, deve ser confirmado, no segundo turno, como governador de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, derrotando figuras conhecidas, como o atual governador Fernando Pimentel, do PT, e o senador e ex-governador Antônio Anastasia, do PSDB; no mesmo contexto, o ex-juiz Wilson Witzel, do PSC, deve vencer a eleição no Rio de Janeiro, derrotando o conhecido Eduardo Paes, do DEM.

Essa guinada à direita nas preferências da maior parte do eleitorado brasileiro, gerando o Congresso Nacional mais conservador desde a redemocratização, em 1985, reside em um conjunto de causas, algumas fundamentais. A principal delas está no extremo desgaste do sistema tradicional de partidos, em que alguns líderes foram alcançados pelas investigações e julgamentos decorrentes da Operação “Lava Jato”. Às revelações dos esquemas de corrupção estatal se somaram a grave crise econômica, que reduziu a geração de empregos e perspectivas de ascensão social, e, por fim, a violência exacerbada nas ruas, que aumentou a percepção pública de que é preciso restaurar a ordem.

A conjugação de tais fatores permitiu a ascensão do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, que, em tom “messiânico” e com discurso contra o sistema de partidos, colocou-o na condição de outsider, embora seja deputado há quase 30 anos. Apresentando-se como defensor dos valores da família e da ordem, Bolsonaro fortaleceu o sentimento de revolta coletiva contra o establishment político, abraçando a bandeira do antipetismo e contra o Governo Michel Temer.

Ainda é cedo para afirmar os possíveis desdobramentos dessa onda conservadora, considerando-se que pouco se sabe das ideias de boa parte dos eleitos. O pleito eleitoral brasileiro, uma vez mais, teve como foco o personalismo e o voto de negação.

E, como um desafio que se impõe, o Brasil conservador nos costumes precisará dialogar com o Brasil da diversidade cultural, a partir do fechamento das urnas em 28 de outubro.

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