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Primeira vez: supermercado


Carrinho cheio, hora de pagar. Melhor evitar o caixa self-service. É muita emoção para um dia só.


Letícia Tórgo é escritora, tradutora e produtora cultural

Marina e Pedro haviam chegado há poucas horas. Era verão e o calor subia do asfalto de tal forma que eles podiam jurar que não mudaram de país. Ela de rasteirinha, ele de regata. Os dois de Havaianas.

Atravessaram a rua e entraram no Metro, felizes em poder contar com um supermercado tão grande na frente do apartamento temporário que haviam alugado. Uma mão na roda, ele disse.

Entraram. Disneylândia era pouco. A ideia de comprar apenas o que estava na lista foi por água abaixo assim que Marina viu que a mostarda Dijon custava três dólares e cinquenta. Quase pegou duas. Mas precisavam economizar. Pedro, por outro lado, já havia desaparecido do seu radar. Foi procurar um carrinho. A cestinha não seria suficiente.

Começaram as compras, comparando preços, marcas e produtos. Nenhuma referência. O que é caro? O que é barato? O que é bom? O castelo da princesa virou a casa dos horrores. Ele, que era o “especialista da picanha”, teve que se contentar com uma bandeja com duas coxas de frango… com pele. A planilha de Excel foi pro buraco. Carne não cabe no orçamento de um novo imigrante.

Tentaram se concentrar. Voltaram para a lista e acharam o limão siciliano mais barato que o Tahiti. Oh, Canadá. Claro que não perceberam que o preço de um era em libras e do outro em unidades.

Farinha. Santa dificuldade. Queijo. Por que tão cara a mussarela? Olha! O Brie é mais barato! Agora tem que achar a geleia de damasco. Não está na lista! E quem se importa? Produtos de limpeza. Por que tão grande a embalagem? Carne de cavalo. É sério isso? Café. Em que corredor? Maple Syrup. Tem que comprar!

Carrinho cheio, hora de pagar. Melhor evitar o caixa self-service. É muita emoção para um dia só. Depois de um sorriso, a menina do caixa fala algo ininteligível. Os dois negam com a cabeça. Você entendeu o que ela disse? Menor ideia. Conforme as compras atravessam a esteira, o valor vais subindo no visor. Pedro está concentrado e não vê a Dijon passar. Acha que o preço do limão está errado, mas prefere deixar para conferir em casa.

Marina pergunta se está tudo bem. Ele diz que o Excel foi pro buraco. Ela vê a moça no caixa ao lado passando o chaveirinho de fidelidade. Aponta para Pedro. Eureka, era isso que a atendente queria! Agora é tarde, deixa para outro dia.

Ela comenta que viu uma loja de vinhos bem pertinho dali. Ele esquece o Excel por um momento. Abraça Marina e dá um beijo em sua testa. Afinal, é só o primeiro dia. Bora passar lá.

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