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Aquela “corrente pra frente” hoje tem elos de rosquinha Mabel


Ninguém precisa mais mascar 800 chicletes pra achar a figurinha do Zico.

Álbum de figurinhas dos chicletes Ping-Pong, com parte da seleção da Copa de 1982.

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

A Copa vem aí! Mas olha só que osso: você já percebeu que com o passar dos anos a gente vai se empolgando menos com ela? Eu tô tão animado pra Copa quanto para a vaquejada de Jacaré dos Homens.

Acho que começa pela corrosão dos valores da família brasileira: uma de suas mais estimadas tradições é matar aula ou serviço em dia de jogo de Copa. Era fácil nos tempos de escola, mas o tempo passa, e Copa após Copa o trabalho vai apertando daqui, dali, daí você muda pro Canadá pra complicar mais ainda… e então acabou. Não tem mais essa de sair mais cedo pra ver jogo. A única saída do fanático por Copa é o famoso Sick Day, e com todo mundo ficando doente em dia de jogo, o patrão canadense fica sem saber se o fenômeno é amor à bola ou surto de Ebola.

Mas Toronto também mudou e a festa aqui parece que só diminui. Na Copa de 2006, a College St. ficou fechada da Dufferin a Ossington para as comemorações. Veio 2010, e não só não fecharam rua, como os malditos holandeses ainda foram pra Dundas quando nos eliminaram. Ficar sem festa tudo bem, mas ter que aguentar desaforo do maior campeão de falecimento litorâneo do planeta (que é a versão gourmet de “morrer na praia”) é de lascar. Em 2014 a festa diminuiu mais, mas eu nunca torci tanto! Estava desempregado e classificação do Brasil significava show de samba pra fazer; portanto, torci mais do que o Araquém e o Pacheco da Gilette juntos pra Seleção pagar meu aluguel. Da mesma forma, o 7×1 também doeu bem mais em mim. Lembrou-me uma vez em que um suíço passou por Alvinópolis durante a Copa, e a todo jogo da Suíça ele ia pro bar do Ninho da Águia assistir. O detalhe é que ele chegava lá e pagava birita pra todo mundo torcer com ele. Será que fez sucesso? Rá! Quando a Suíça foi eliminada, nem Zurique nem Berna choraram tanto quanto o povo do Ninho da Águia. Aliás, acho que nem o próprio suíço chorou tanto.

Os tempos atuais revelaram também muita podridão desanimadora no futebol. E já não há jogadores dos times da gente na Seleção, só os caras que jogam na Europa com a vida ganha e não estão nem aí pra Copa. E o álbum de figurinhas já não é do Ping-Pong, ninguém precisa mais mascar 800 chicletes pra achar a figurinha do Zico. A Copa já não é mesmo como antigamente.

Mas claro que não é! Nada é igual a antigamente. Só que nós estamos ficando velhos e enjoados, e queremos viver de memórias do passado, ao invés de criarmos um presente memorável. A vida traz outras prioridades e a gente perde um pouco o interesse mesmo. Se perdeu a graça, é porque outras coisas ganharam graça. Então vamos aproveitar o que ainda nos dá prazer na Copa e deixar o resto de lado – incluindo aí os Ping-Pongs, porque dentadura no Canadá deve ser uma fortuna! E se tudo der errado, ainda assim faça como eu e agradeça: agradeça por não depender mais de vitória daquela perebada come-e-dorme de chuteira pra pagar aluguel. Ô raiva daquele 7×1 miserável…

Adeus, cinco letras que choram.

Sobre Cristiano de Oliveira (10 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

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