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Mundo digital


Hoje em dia eu tenho o mundo na palma da mão. O mundo, no caso, é o smartphone que ganhei de presente no último Natal.


Antônio Francisco Pereira é escritor em Minas Gerais

Hoje em dia eu tenho o mundo na palma da mão mas, às vezes, ainda me sinto um homem das cavernas. O mundo, no caso, é o smartphone que ganhei de presente no último Natal. Um belo brinquedo com mil e uma funcionalidades embutidas num tijolinho que não pesa mais que a minha consciência. Ali eu tenho computador, cinema, correio, biblioteca, filmadora, um estúdio fotográfico e até uma sala de conferências. Embora com certa dificuldade no manuseio, tudo o que eu quiser está ali, na ponta dos dedos; até o próprio telefone, que vai perdendo espaço para um aplicativo que é, atualmente, o xodó do homo digitalis: o WhatsApp. E é justamente nesse ponto que eu regrido à Idade das Cavernas.

Explico. Já com a vista cansada e ainda condicionado ao hábito de esmurrar, durante décadas, o teclado de uma máquina Olivetti mais pesada e barulhenta do que uma britadeira, é óbvio que minha adaptação à nova ferramenta não seria fácil. Pau que nasce torto…

A minha bronca já começa com a finalidade do engenho, que se destina a mensagens rápidas e instantâneas. Ora, na minha idade nada mais (daquilo que ainda funciona) é rápido, a não ser eventual corrida ao banheiro. Tela ultrassensível, espaço mínimo como uma caixa de fósforo, letras miúdas e xifópagas, nada disso combina com dedos calosos, reflexo lento e falhas de memória.

A linguagem também é outra. Muitas vezes você tem que decifrar a mensagem recebida, que parece vir criptografada, podados os sinais gráficos e quase todas as vogais. Exemplo: “PF LOK LIZA 51 MI AP EX MN GDDL V LIMA”. De início, você acha que está diante dos pergaminhos do Mar Morto. Depois pensa que pode ser uma ameaça ou um pedido de resgate. Finalmente, com algum esforço e o noticiário da televisão, a luz se faz: “POLÍCIA FEDERAL LOCALIZA 51 MILHÕES EM APARTAMENTO DO EX-MINISTRO GEDDEL VIEIRA LIMA”.

Ah… e tem hora que não chega mensagem nenhuma, mas apenas umas carinhas com diferentes expressões. Vovô, isso são os emojis, explica meu neto primogênito, que ainda tem paciência para explicar alguma coisa ao jurássico ancestral. Muito prazer, respondo eu.

Só não tenho muito prazer quando vou digitar alguma coisa. Aí o bicho pega. Eu coloco uma letra e o visor mostra outra. Coloco uma palavra e o visor mostra outra ou muda, por conta própria, o termo que eu pus no meio do texto. Parece até sabotagem, porque às vezes altera todo o sentido da comunicação. “Pedido” vira “peido” e “buda” vira “bunda”. E isso é perigoso. Imagine uma mensagem romântica com esses equívocos. A mulher pede a separação.

Por tudo isso é que, de certa forma, eu fiquei satisfeito quando, não faz muito tempo, um juiz mais afoito suspendeu temporariamente esse serviço. Para mim foi uma trégua nesse fogo cruzado entre bytes e megabytes. Eu já estava um pouco saudoso da escrita cuneiforme, onde pau é pau e pedra é pedra. Da composição mecânica, onde as palavras não são mutiladas e não existem expressões esquisitas, como “startar” e “inicializar”. Saudade da época em que o beijo e o abraço eram dados pessoalmente, e não por meio de duas letrinhas assexuadas.

Mas não reclamo. Pelo contrário. Fico deslumbrado quando vejo meu netinho caçula, que ainda não completou um ano, deslizar agilmente o dedinho pela tela do aparelho, abrindo e fechando janelas instintivamente, como se tivesse aprendido essa arte ainda no ventre materno. Aposto que ele vai surfar nas ondas do WhatsApp e demais aplicativos antes mesmo de aprender a falar papai e mamãe.

Este, sim, é o admirável mundo novo.

 

[Esta crônica foi premiada em 2º lugar no 4º Concurso Nacional Literário da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil]

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