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Aquela pergunta chata de responder: “E o Brasil, hein?”


Da necessidade de ter pra quem torcer, de ter bandido e mocinho.


Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Saudações, povo jovem dos cabelos ao vento.

Não importa o assunto que eu resolva tratar aqui, com certeza alguém vai dizer: “Mas como você pode dedicar um artigo pra falar de uma coisa tão boba, enquanto o Brasil vive um momento como esse?”. Aí eu vou ficar me sentindo como o Costinha em um velório, contando piada no meio da tristeza (isso era um fato recorrente e constrangedor na vida dele). Mas se eu fosse sempre me basear no momento que o Brasil vive pra reger minha vida, eu já estava na tarja preta há tempos, porque o Brasil sempre viveu esse tal momento. Mesmo quando não o viveu, disseram-nos que ele o vivia, pois sempre fomos as marionetes desse teatro.

Desde pequenos, nosso fim do dia ao lado da família é permeado pelo dramalhão que um dia acaba em final feliz e é substituído por outro (tô falando de novela, não de briga com vizinho). Também tem o futebol, onde desde cedo aprendemos que nosso lado é bom e o outro é ruim – simples assim. Por que o nosso lado e não o outro? Não queremos saber. Essa mistura de drama e rivalidade rege a cabeça do brasileiro desde que ele nasce.

No momento em que a internet chega trazendo concorrência, a imprensa tradicional leva uma no queixo e não pode mais se dar ao luxo de ter só compromisso com a notícia: ela passa a ser empresa como outra qualquer, precisa disputar clientes e vender seu produto. Pra isso, a notícia tem que se tornar um produto atrativo, correta ou não. E como atrair a clientela brasileira? Basta apelar para os nossos instintos noveleiros – pra cada Sassá Mutema dentro de nós. Em resumo: o barraco! A prova está na multiplicação dos programas policiais estilo “mundo cão” na TV: Cidade Alerta, Aqui Agora etc. E na hora de falar de política, basta transformá-la em barraco e novela que o interesse aparece. O brasileiro adora criar ídolos da mesma forma que adora destruí-los. É a necessidade de ter pra quem torcer, de ter bandido e mocinho. A conclusão é simples: palavras como “crise” e “corrupção”, pra imprensa, traduzem-se como “ganhar na loto”. Elas vendem jornal. Geram comoção, bate-boca, nervosismo… e consequentemente, a garantia de que todo mundo fica doido pra consumir o próximo capítulo. E foi assim que nos colocaram onde estamos.

Viramos peças desse jogo. Os Anões do Orçamento, Juiz Lalau, Casa da Dinda, Pedaladas… são novelas antigas com títulos engraçadinhos, que pegam fácil e que ninguém lembra mais, mas que um dia também geraram indignação, e às quais nós reagimos enquanto fomos “mandados” – quando passou a moda, nós as esquecemos. Somos um povo interessante e trabalhador, só precisamos deixar o drama um pouco de lado e julgar com mais cuidado, não só a banana, mas também quem falou que ela está podre. Ler além da manchete. Desconfiar. Procurar saber melhor. Procurar uma segunda opinião. Afinal, foi a vontade de dar tiro sem saber pra onde que começou toda essa confusão. A situação do Brasil é terrível sim, e infelizmente fomos nós que a criamos. Agora é preciso cuidado e senso crítico pra melhorá-la.

Adeus, cinco letras que choram.

 

Sobre Cristiano de Oliveira (5 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

1 comentário em Aquela pergunta chata de responder: “E o Brasil, hein?”

  1. Concordo, excelente material.

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