As veias abertas do pão de queijo

“Cê tá aqui há muito tempo, já não é mineiro mais não. Cê nem me convidou pra tomar um cafezinho na sua casa!”

Detalhe da ilustração "Sísifo", de Valf.

Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

Diário de Bordo: ao primeiro mês d’os anos 2000 de Nosso Senhor, este muy jovem rapazim era recém-chegado ao Brasil após longa temporada de estudos à capitania do Canadá, e sem delongas preparar-se-ia para nova viagem, desta feita curta, ao nordeste brasileiro. Partiu pois o éfebo à magnífica Fortaleza.

À primeira noite de quarta-feira em terras novas, sai a procurar um bar que transmitisse o jogo do Galo. Ao avistar uma televisão, solicita que sintonizem em citada peleja. Trava-se pois o seguinte diálogo:

– O que é Galo, macho?

– Uai, Galo é Galo, é o Atlético Mineiro.

– É amigo do Vasco, é?

– É sim!

– Poirrintão vou torcer com tu.

Eram tempos pré-smartphone, e o mineiro era um ilustre desconhecido. Finda o diário de bordo, mas tem outra historinha.

Voltei ao Canadá e à convivência com gente de toda parte. Com mineiros também, porém, o Canadá Brasileiro tem uma cultura própria. Todos aqui vivem a mesma realidade, portanto, as peculiaridades regionais do Brasil ficam em segundo plano. Embarca-se no dia a dia local e vida que segue.

Eis que um dia saio para conhecer um casal recém-chegado que pegara meu telefone com um grande amigo do Brasil. O marido foi um pouco deselegante comigo em certa altura, mas deixei pra lá. Após alguns encontros, distanciamo-nos por alguns dias, e daí o cara me liga. Não lembro o motivo da ligação, só me recordo que ele foi desagradável, e disse uma frase que nunca esqueci: “Cê tá aqui há muito tempo, já não é mineiro mais não. Cê nem me convidou pra tomar um cafezinho na sua casa!”.

Com isso, cheguei onde queria chegar: de desconhecido, com o advento da mídia social – porque da televisão não se espera nada, já que desde que nasceu só fez ignorar a cultura brasileira que não fosse sediada no Rio e em São Paulo – o mineiro passou a ser conhecido como o cidadão proibido de trancar a porta de casa, onde até o Elias Maluco bêbado às 3 horas da manhã pode entrar e sentar pra tomar café. Criou-se um estereótipo de que sempre teremos cafezinho e pão de queijo pronto pra quem chegar: cês tão confundindo minha casa com laboratório de exame de sangue (do Brasil, porque os daqui mal dão o curativo). As visitas já estão chegando com 8 horas de jejum. Isso tá ficando sério, o povo já olha pra mim e enxerga a fumacinha do café deixando meu corpo, como se fosse a alma de Tancredo Neves indo buscar um bolo de fubá na eternidade. Eu agora tenho que dar café, bolo, biscoito, pão de queijo, cachaça… Eu tô recebendo visita ou entidade?

Sim, essa coisa de receber bem existe em Minas Gerais, mas não é bagunça não. É até perigoso, porque também existe mineiro inospitaleiro, e arrisca você fazer gracinha com um cara mais grosso que papel higiênico rosa: só aqui em Toronto eu conheço uns 30, dentre homens e mulheres – sim, mulher bruta também temos! A pessoa te olha parecendo Lampião com dor de dente. Vai lá e pede um cafezinho pra ele, vai?

Ilustração “Sísifo”, de Valf.

E o caso 2 citado acima demonstra que nós também damos corda pra essa ideia. Muitos mineiros, catequizados pelos invasores, já se pegam perguntando “cê é fi de quem?” um pro outro. Quebrem essas correntes, jovens! Essa frase é um desrespeito às nossas mães, que passaram décadas aperfeiçoando a técnica de descobrir os laços familiares de simplesmente todo mundo. Vamos evoluir. Hoje deveríamos perguntar “cê não tinha um primo de segundo grau que morava lá no bairro do Sapo em Manhumirim e mexia com confecção?”.

Enquanto a ONU não coloca o mineiro na pauta da COP e as madeireiras continuam a derrubar nossa mata nativa pra plantar pão de queijo e furar poço de café, eu vou é pra casa porque é Natal. A vocês, um excelente fim de ano com muito cafezim e pão de queijo não feito por mim, e minha gratidão por mais um ano de leitura.

Adeus, cinco letras que choram.

Sobre Cristiano de Oliveira (35 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

1 comentário em As veias abertas do pão de queijo

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