Trocando o certo pelo incerto
José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto
Todos nós temos um dia em que queremos chutar o balde. Daí vem conclusões baseadas em impulsos como “eu tenho o pior chefe do mundo”, “eu tenho o pior emprego do mundo” ou “este é o pior país do mundo”. Esporadicamente isso pode acontecer, seguido por um esfriar a cabeça. O problema é quando se torna algo crônico, ou seja, um fenômeno repetitivo que leva a nos autoconvencer de que estas bravatas são realidade. Pode chegar a um ponto que, um dia, no calor da emoção, se tome uma atitude impensada, como assinar a carta de demissão sem ter nenhuma outra oportunidade em vista. “Todo mundo consegue algo melhor”, faz parte do pacote de pensamentos, o que impulsiona para o risco.
O problema é o dia seguinte (e os que se seguem), ao trocarmos a segurança de uma renda minguada, mas certa, por possibilidades que achamos múltiplas, mas que, na verdade, são escassas. Logo que percebe que trocar um passarinho na mão por dois voando, já dizia o velho ditado, é um mau negócio. Simplesmente recuperar a renda e comodidades que se tinha anteriormente pode demorar muito mais do que imaginamos. A vida fácil que imaginávamos que conseguiríamos rapidamente pode ser apenas uma ilusão.
Mais complicado é quando colocamos não apenas nós, mas toda a família, nesta arapuca. As necessidades dos filhos seguem, a começar por pão na mesa, e não tem como esperar. A aflição da falta de renda pode levar a um dominó de alternativas igualmente prejudiciais, como recorrer a empréstimos em cartões e linhas de crédito, de onde ficará mais difícil de sair a cada dia.
A imigração é uma das maneiras pelas quais se pode trocar a certeza de um dia a dia restrito, mas que vai se levando, pela incerteza de um futuro melhor. Afinal, ouvimos de várias fontes – muitas delas não confiáveis – de que o outro país está desesperado por trabalhadores, e estão chovendo empregos bem remunerados. Aí, para completar, aparece uma reportagem na TV em que um engraxate conseguiu comprar uma bela casa em pouco tempo como imigrante.
Porém, basta colocar os pés no novo país para se ter o choque de que não é nada disso. As necessidades de mão-de-obra são muito específicas, e dificilmente você se encaixa nelas. De maneira geral, as universidades desses países são capazes de formar toda a força de trabalho de que precisam – e ainda sobra, pois recém-formados lutam para obter seu primeiro emprego. O que resta, então, para imigrantes formados por desconhecidas instituições de ensino do exterior (aos olhos dos recrutadores) e com mais idade?
A ideia de que estão pegando gente à tapa para trabalhar, como se imagina, naufraga na contagem do LinkedIn de que há 600, 800, mil ou mais candidatos por vaga. Sim, você leu corretamente! Igual ou pior do que concursos públicos no Brasil, com a diferença de que a escolha se dá por meio de algoritmos e da simpatia que o candidato passar. Mas claro que entre esse tsunami de candidatos, o que conseguirá o emprego é certamente aquele que tem o melhor networking – o nosso popular pistolão. Mas como que o imigrante, que praticamente só tem conhecidos na mesma situação de luta, vai conhecer pessoas em posição de mando para dar a indicação? São amizades que se formam na high school ou na universidade, que o imigrante não cursou no novo país.
O imigrante, tem, portanto, uma luta triplicada para ter um lugar ao sol na nova terra, enquanto enfrenta altas despesas em dólares com suas parcas economias em reais. O sucesso não é garantido, é uma incógnita. A tranquilidade do velho emprego, com décimo-terceiro, férias de 30 dias, vale-refeição e vale-transporte, às vezes dá saudade.

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