A primeira impressão é a correta

Como é importante prestar atenção na intuição

Ilustração de Paft Drunk.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

É notório que a realidade não se limita ao que se pode provar cientificamente, com muito mais coisa rolando em paralelo. Um dos exemplos mais conhecidos é nossa intuição, que nos dá sacadas do que está acontecendo, embora não possamos provar. E uma das melhores manifestações da intuição está na primeira impressão, que costuma ser a correta. Quando a primeira impressão é negativa de algo que não gostaríamos que fosse assim, temos a tendência de contemporizar, achando que depois vai melhorar, e continuamos apostando naquela situação. Na maioria das vezes, para quebrar a cara.

Uma situação clássica de intuição perfeita é quando vamos a uma festa e encontramos estacionamento na porta e não há fila para entrar. A ideia de nos acharmos sortudos dura só um minuto, pois basta entrar para constatar um salão vazio e uma festa morta. A intuição nos diz “essa festa jamais vai decolar”, mas muitas vezes não acreditamos e achamos que daqui a pouco o pessoal chega, e vamos ficando. Roubada. É uma noite perdida em uma festa chata.

Uma vez estava com uma galera em um esquenta de Ano Novo e ligamos para um que foi adiantado para a festa. Ele disse que fôssemos, que estava ótimo. Mas como que em uma festa ótima ele ouviu o celular tocar e estava desocupado para atender no primeiro toque? A intuição dizia para não ir, mas fomos. Era mentira, estava vazio, e já era tarde para irmos passar o Ano Novo em outro lugar.

Os primeiros 15 minutos de um filme também nos dão a intuição se vamos gostar ou não. Se a impressão não foi boa, melhor ver outra coisa no Netflix ou sair do cinema para não ficarmos com o arrependimento de termos perdido tempo à toa.

O início da conversa com outra pessoa, por sua vez, já dá uma ideia se dali pode sair a possibilidade de existir uma segunda conversa no futuro. Seja uma amizade ou relacionamento comercial, já se percebe como a outra pessoa funciona e se há uma afinidade com o que pensamos. É possível enganar-se em um primeiro momento e só depois a outra pessoa revelar sua verdadeira personalidade? Sim, mas isto é mais raro.

Também é bom confiar na primeira impressão quando se vai alugar ou comprar um imóvel. Se houve um encantamento à primeira vista, é sinal de que você pode ser feliz ali. Todavia, se você notou que ao lado há uma chaminé de fábrica, não tente se autoconvencer de que você vai se acostumar. O arrependimento pode começar no próprio dia da mudança, mas aí o contato já está assinado e não há como retroceder.

Da mesma forma, confie na sua primeira impressão a respeito da imigração. Se as coisas vão se encaixando perfeitamente como em um quebra-cabeça, você está no caminho certo. Porém, se conseguir a documentação para residente permanente é uma odisseia, o inverno rigoroso é um penar diário e uma proposta de emprego nunca vem, a intuição está dizendo que aquele lugar não é para você, e somente está se forçando por algo que não é para ser. Desistir é duro, sabemos. Mas não se investe dinheiro bom em barco que está afundando.

Sobre José Francisco Schuster (92 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

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