Ainda EsTOu Aqui (com alguns spoilers)
Mariela Torroba Hennigen é jornalista
Onde é aqui?
Este é o título do capítulo inicial do livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva. Nele, o autor retrata a história familiar, sobretudo o desaparecimento de seu pai Rubens e como sua mãe Eunice navegou essa realidade invadindo o seu lar. O livro de Marcelo deu origem ao filme que agora está indicado para três categorias do Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Atriz para Fernanda Torres, e Melhor Filme.
Mas onde é aqui? Para muitos, é estar dividido entre dois países: Brasil e Canadá.
Mariana Reis (18 anos) é brasileira-canadense, nascida e criada em Toronto por pais soteropolitanos. Ela soube da obra através das redes sociais, após ver que Fernanda Torres foi premiada no Globo de Ouro pelo seu protagonismo de Eunice Paiva. Mariana nunca imaginou poder assistir cinema brasileiro em Toronto, “e também que o povo daqui possa conhecer um pouco dessa nossa identidade”. Já Marina Santos Meireles (20), paulistana, sentiu uma mistura de “muita felicidade” e “muita vergonha”. Apesar da produção ser prestigiada no exterior, “ver que esse é o nosso passado” a envergonhou.
Convidei alguns amigos estrangeiros para assistirmos ao filme juntos. Eles me agradeceram, pois disseram que se não fosse por mim, nunca teriam sabido de “Ainda Estou Aqui”.
Larayb Abrar (27) é canadense-paquistanesa. O longa-metragem a lembrou de desaparecimentos que acontecem na região de Baluchistão, no sudeste de seu país, “principalmente de pessoas rotuladas como indesejáveis”. Anna Lysenko (22) nascida em Kiev, na Ucrânia, disse que o filme “é mais relevante do que nunca, considerando o [atual] ambiente político”.

Cartaz do filme “Ainda Estou Aqui”, no TIFF Lightbox, ao lado do filme “Hard Truths”, considerado por Fernanda Torres um de seus filmes favoritos de 2024.
“A família Rubens Paiva não é vítima da ditadura, o país que é. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva.” (trecho do livro de Marcelo Rubens Paiva)
Para os brasileiros, assistir a um filme que ocorre durante a ditadura militar detalha uma história nacional. Laura Hochheim Thomé (25), gaúcha nascida em Bento Gonçalves e criada em Porto Alegre, aprendeu sobre o casal graças à obra. “Consegui [ver] como era a realidade de uma família para se manter no meio disso tudo”, ela disse. Arnold Machado da Silva (22), aracajuano e estudante de história pesquisando a ditadura brasileira, observou com o caso de Rubens Paiva “educa tanto a população do Brasil como a população internacional”.
A vida da família também marcou Ani-Keith Teeluckdharry (23), natural de Porto Luís, capital da ilha Maurício. Porém, ainda assim achou difícil aceitar que eles não obtiveram a justiça que mereciam. “Só de pensar [que] uma certidão de óbito possa [parecer] um pedaço de justiça não é justo.” Aqui, ele se refere à cena na qual Eunice Paiva celebra finalmente conseguir o documento oficialmente declarando a morte de seu marido.
Ani-Keith questionou: “Mas é realmente o fim da história? Eu não acho”.
A sua reflexão me intrigou. A Lei da Anistia, promulgada em plena ditadura militar em 1979, visava prevenir que crimes políticos fossem julgados pós-ditadura, fazendo com que os exilados voltassem para o país e que torturadores saíssem impunes. Anistia remete ao esquecimento. E Marcelo Rubens Paiva, com seu livro, luta exatamente contra o esquecimento.
Neste momento, lhe perguntei: “Você acharia que por isso o título é ‘Ainda Estou Aqui’?”. Ani-Keith admitiu não ter pensado nisso, e respondeu: “Talvez também [se refira] às outras histórias semelhantes que não foram contadas e que essas pessoas ainda estão aqui. Elas merecem ser reconhecidas [e] suas famílias merecem a justiça que não receberam”.
No mesmo dia que o longa-metragem recebeu suas três indicações ao Oscar, a mídia brasileira noticiou a atualização da certidão de óbito de Rubens Paiva, que agora consta que sua morte foi “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto […] do regime ditatorial instaurado em 1964“. Em 1996, quando Eunice obteve uma certidão, Rubens era considerado apenas desaparecido desde 1971.
“Tenho um agradecimento a fazer aos militares brasileiros: obrigado por não terem matado a minha mãe.” (trecho do livro de Marcelo Rubens Paiva)
No filme, “Ainda Estou Aqui” tem uma cinematografia deslumbrante com todos os seus detalhes nostálgicos da década de 70: arquitetura do Leblon, carros de época, filmadora analógica, máquina fotográfica de filme e toca discos de vinil.
No livro, Marcelo Rubens Paiva descreve cenas que não estão no telão, como a de Eunice confiar a ele a missão de sair desapercebido de casa, já tomada com os policiais à paisana, e ir até a vizinha levar uma caixa de fósforos. Nela, estava um bilhete explicando que tinham levado Rubens. A leitura enriqueceu meu assistir do filme, e a obra original deve ser valorizada tanto (ou mais) agora que o longa é candidato ao Oscar.
O longa-metragem está em cartaz no TIFF Lightbox e no Cineplex. Para outros locais com sessões em Ontário, confira esta publicação no Instagram. No Spotify também se encontra uma playlist com a trilha sonora de “Ainda Estou Aqui”.
É um momento histórico poder prestigiar este filme, pelas suas inúmeras premiações e por eternizar a memória de Rubens Paiva, Eunice Paiva e seus filhos. Ainda estaremos aqui, depois do Oscar, para continuar lutando para preservar a memória do passado no nosso presente.

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