Viajando só com a mala de mão

Pertence ao passado o tempo em que a Air Canada permitia viajar entre Brasil e Canadá com duas generosas malas de 32 quilos cada

Foto: Bonnie Henderson.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Pertence ao passado o tempo em que a Air Canada permitia viajar entre Brasil e Canadá com duas generosas malas de 32 quilos cada – o que vinha muito a calhar para quem estava imigrando para o Canadá. Após a pandemia, as companhias aéreas começaram a tentar recuperar o lucro perdido, e uma das maneiras foi começar a taxar inclusive a primeira mala, reduzida a 23 quilos. Como os salários não subiram, o jeito está sendo os viajantes se adaptarem à nova realidade, promovendo cortes na bagagem.

Morando no caminho de uma estação do UP Express, o trenzinho que leva os passageiros do centro ao aeroporto de Toronto, comecei a observar uma prevalência de passageiros carregando apenas mala de mão. As malas tradicionais tornaram-se minoria, embora reconheça que quem as carrega, pelo volume, deve preferir o uso de Uber ou táxis em vez do trem. De qualquer forma, é nítido que muitos em voos domésticos ou para os Estados Unidos abriram mão das malas convencionais para se restringirem à bagagem de mão – que agora em janeiro também passaram a ser cobradas pela Air Canada em voos da América do Norte e do Caribe.

Além da economia na passagem, outra vantagem é não ter que esperar por um tempo, que é cada vez maior, nas esteiras de bagagem para recuperar a sua mala, além da preocupação dela ter chegado ou não.

Mas em voos transoceânicos, de férias do Canadá, é viável viajar só com bagagem de mão? Com o preço das passagens para o Brasil mais salgado, acrescentar o custo de uma mala só piora a situação. Uma agente de viagens me disse que tinha clientes viajando para o Brasil só com a bagagem de mão. “O xampu você compra lá e deixa lá”, sugeriu ela. Me animei, mas nem precisei seguir a orientação dela: meu modesto hotel oferecia xampu em sachê junto com o sabonetinho.

Usei as recomendações de uma reportagem da revista da Canadian Automobile Association (CAA) sobre como viajar só com bagagem de mão. Abrir a mala de mão é um tanto assustador, pois é realmente pequena, dentro dos limites permitidos pelas companhias aéreas. Entretanto, como em um jogo de Tetris, tudo vai se encaixando. A vantagem é que se você não for para o sul do Brasil em julho ou agosto, não é necessário roupas de inverno, que são volumosas.

Assim, a lista ficou em meia dúzia de camisetas, dois shorts, uma calça de moletom, cuecas, meias, chinelo, sandália e um moletom para caso esfriasse. Você vai vestindo na viagem um jeans e o casaco de inverno para sair do Canadá. Suficiente. Contudo, as companhias aéreas permitem, ao menos até agora, além da mala de bordo, um “objeto de uso pessoal”. Aí arranjei uma mochila de maior porte do que a de meu uso diário, para incluir bugigangas e roupas que não couberam na mala de mão.

O resultado é que deu certo e não me faltaram roupas. Lavava as cuecas no chuveiro do hotel, tendo sempre várias de sobra, e mandei tudo para uma lavanderia com uma semana de viagem, que me devolveu em 24 horas. Eu já sentia que seria possível porque minha bagagem despachada nunca chegou ao máximo de peso – dava ao redor de 17 quilos – e eu voltava com várias roupas que só foram passear no Brasil. Não precisamos de tantas coisas materiais, o importante da viagem foi rever e abraçar familiares e amigos queridos, em lembranças inesquecíveis. O resto é supérfluo.

Sobre José Francisco Schuster (92 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

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