Custo de vida canadense tem se tornado proibitivo

Mesmo encontrar um basement para alugar pode ser um grande desafio

Foto: Jörg Möller.

Camila Garcia é colunista do Jornal de Toronto

A dúvida mais comum em grupos de WhatsApp ou Facebook, por brasileiras e brasileiros que se preparam ou têm interesse de vir a Toronto, é sobre o custo de vida. Bom, meus caros, morar em Toronto virou praticamente um esporte de resistência. Para quem já está aqui há algum tempo, sem precisar de diploma em economia, sabe que, ano a ano, a situação se complica, e sente a mudança no bolso e no poder de compra. Os aluguéis exorbitantes e o custo de vida altíssimo fazem com que a cidade seja cada vez menos acessível à classe média e à classe trabalhadora. Apesar do mercado imobiliário flutuar bastante, o preço médio de uma casa pequena na cidade ultrapassou $1 milhão de dólares, de acordo com a Canadian Real Estate Association – e insiste em não descer mais –, o que significa que, para muitos de nós, a casa própria entra na lista de sonhos que dificilmente serão conquistados.

O mercado de aluguel também tem a sua fatia do bolo, e não apresenta um cenário muito diferente. Dados do Toronto Regional Real Estate Board revelam que no terceiro trimestre de 2024 o aluguel médio de um apartamento de um quarto esteve em torno de $2.499 dólares, o que simboliza que o direito à habitação, enquanto um direito essencial, começa a parecer mais um privilégio.

Em 2019, a Canadian Centre for Policy Alternatives introduziu o conceito de “rental wage” [salário de aluguel], ou seja, o valor do salário por hora necessário para pagar o aluguel, considerando 40 horas de trabalho por semana, por 52 semanas por ano e gastando no máximo 30% da renda em moradia. O “salário de aluguel” é então o valor que as pessoas precisam ganhar para pagar o aluguel sem sacrificar outras necessidades básicas. Pois bem, o relatório Out of Control Rents: Rental wages in Canada 2023 demonstrou, província por província, a disparidade entre esses dois fatores. De acordo com a tabela ao lado, em Ontário, para que uma pessoa possa viver confortavelmente em um apartamento de um quarto, ela precisaria ganhar $28.50 por hora.

Fonte: CMHC, Rental Market Survey Data Tables; ESDC, Minimum Wage Database.

Efetivamente, em 1 de outubro de 2024, o salário mínimo na província passou a ser de $17.20 por hora; no entanto, uma vez que a diferença é tão grande, o aumento irá direto para o bolso dos proprietários, ao invés de melhorar a qualidade de vida das famílias trabalhadoras. Esses números revelam um problema estrutural: uma economia centrada no mercado imobiliário e no lucro de grandes investidores que está pouco interessada nas pessoas que fazem a cidade acontecer.

Os reflexos são percebidos em todos os departamentos da vida moderna, e acabam por sobrecarregar sistemas criados para situações emergenciais, como o caso dos bancos de alimentos. Uma divulgação recente do Food Bank Canada revelou que o uso de bancos de alimentos no Canadá atingiu um recorde histórico, com 2 milhões de visitas mensais.

Enquanto lutamos para sobreviver no dia a dia, o cenário global vive um drama político que indica um futuro repleto de incertezas. Nos Estados Unidos, Donald Trump foi reeleito, configurando o pressagio de um ano intenso nas relações bilaterais com o Canadá: o retorno de políticas protecionistas e tensões comerciais que podem desestabilizar ainda mais a economia canadense. Trump já expressou seu desdém pelo apoio econômico ao exterior, incluindo o Canadá, e os analistas da CBC ressaltam o impacto potencial que suas promessas de colocar os Estados Unidos “em primeiro lugar” terão nos parceiros comerciais. Isso tornará nosso cotidiano menos estável, já que setores como o agropecuário e o de manufatura perderão investimentos, tornando consequentemente a vida mais cara para os cidadãos.

A combinação de um custo de vida proibitivo e a instabilidade política externa coloca em cheque o futuro de cidades como Toronto. A questão é clara: para quem estamos construindo essa cidade? É preciso repensar o modelo econômico que impulsiona a desigualdade social, enquanto poucos acumulam lucros. No Canadá, país que se orgulha de seus valores de equidade e justiça social, é inaceitável que tantos enfrentem a realidade de não poderem mais viver onde construíram suas vidas.

Por fim, a luta é por um sistema mais justo, por oportunidades e por uma qualidade de vida decente para todos, e não somente para aqueles que podem pagar por elas. Até quando Toronto será apenas para poucos? A mudança é urgente, e ela só virá com políticas que priorizem as pessoas em vez do lucro. A pergunta que fica é: quem terá coragem de enfrentar esse desafio?

Sobre Camila Garcia (16 artigos)
Camila é paulista e já trabalhou com teatro, rádio, televisão e jornalismo. Sempre de olho no universo político, adora trocar suas impressões com os mais chegados, e agora com os leitores do Jornal de Toronto. Atualmente é apresentadora do programa de televisão Focus Portuguese, todos os sábados e domingos, na OMNI TV.

1 comentário em Custo de vida canadense tem se tornado proibitivo

  1. Parabens Camila, adorei a reportagem, e sim Toronto mudou muito nos 30 anos que ja moro aqui. Seguimos confiantes que o cenario mude num futuro proximo.

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