Adotado e deportado

Como um caso trágico conseguiu mudar a lei dos Estados Unidos

Joao Herbert.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

A regra geral entre os países é primeiramente conceder documentação como imigrante e, somente após um período probatório, como acontece em empregos, fornecer a cidadania do país de adoção. Contudo, os Estados Unidos faz dessa forma mesmo para crianças adotadas por cidadãos de seu próprio país – ainda que a criança pouco ou nada tenha de raízes de seu país de origem. Foi assim que João Herbert, adotado por Jim Herbert e Nancy Sauders, de Ohio, ao ser preso na adolescência, não escapou de ser deportado de volta para o Brasil, onde até chegou como herói, mas onde acabou como vítima de assassinato. O caso fez com que o governo dos Estados Unidos mudasse a lei para conceder a cidadania imediata aos adotados.

A dramática história que poderia ser uma boa ficção, mas que foi uma triste realidade, é o tema do livro João Herbert: Adotado e Deportado – Como um caso real trágico conseguiu mudar a lei norte-americana, da embaixadora Wanja Campos da Nóbrega, lançado no Brasil em 2022, e que agora ganha uma versão em inglês, João Herbert: Adopted & Deported – The True Story Of How One Tragic Case Changed The American Law, que teve seu lançamento em 22 de maio em Toronto, na Underscore Projects, com ilustrações de Ivonete de Sousa e edição de Peter Hawkins.

A embaixadora Wanja Campos da Nóbrega autografando seu livro no Underscore Projects, em Toronto.

Ex cônsul-geral do Brasil em Toronto, a autora escreveu seu primeiro livro recordando seu trabalho no Consulado do Brasil em Washington. “Trata-se de um caso muito emblemático que eu cuidei como cônsul em Washington, ocorrida em 1999, e que foi muito marcante. Nunca esqueci esse caso e achei que merecia vir a público por suas mais diferentes facetas”, diz ela. Adotado aos 8 anos em um orfanato da periferia de São Paulo, João Herbert foi condenado por vender maconha a um policial à paisana em 1997. Os pais adotivos passaram dois anos tentando de tudo para evitar a deportação – de ligar para deputados e senadores a contratarem advogados –; contudo, uma recomendação unânime de clemência do Ohio Parole Board foi negada pelo governador Bob Taft. A Embaixada do Brasil nos Estados Unidos tentou barrar a deportação, por sua vez, recusando-se a emitir um passaporte brasileiro, alegando que a adoção o teria tornado um cidadão dos Estados Unidos. Mesmo assim, ele acabou sendo deportado em 2000, aos 22 anos de idade.

João Herbert, apesar disso, chegou ao Brasil como celebridade, e a Goodyear do Brasil chegou a oferecer-lhe um emprego e uma casa. Ele decidiu, porém, ir para Campinas com o missionário estadunidense Michael Miller, que conheceu na sua primeira semana no Brasil, onde abriu uma escola de inglês na periferia. Acredita-se que policiais criminosos imaginaram que ele tinha muito dinheiro e o assassinaram com seis tiros nas mãos, pés, cabeça, ombros e costas em 2004, aos 26 anos de idade. Ele deixou a namorada e a filha de seis meses que tinha com ela. Apenas 60 amigos e alunos compareceram ao modesto funeral. “Ele chegou como herói, mas morreu como um nada”, afirmou o missionário Miller.

Wanja diz que seu objetivo não é criticar adoções internacionais. “Não é esse o tema, nem está discutido no livro se adoção internacional deveria ser uma segunda opção. Acredito que adoção é um ato de amor, independentemente de onde as crianças e os pais tenham nascido. Na época, em 1999, a lei norte-americana não concedia automaticamente a nacionalidade norte-americana aos filhos adotados ou biológicos nascidos no estrangeiro, e muitos pais adotivos desconheciam que necessitam de um processo a parte para os filhos adotivos”, afirma. Otimista, ela considera que o panorama melhorou. “Muita coisa já mudou nesses 20 anos, sobretudo com o guarda-chuva dos Acordos de Haia sobre Adoção Internacional, inclusive a própria lei nos Estados Unidos”, avalia.

A escritora diz que a intenção do livro é “salientar a importância de ações coordenadas e solidárias em prol dos mais vulneráveis. Mesmo que alguma lei diga o contrário, é importante posicionar-se, pois as leis podem mudar, como foi esse o caso do João Herbert”. Assim, depois de publicá-lo em português, decidiu lançá-lo também em inglês, pois a história ocorreu nos Estados Unidos, onde houve muitos casos semelhantes. Também está publicado em espanhol, igualmente em uma tradução de Gabriela Jungblut, depois de ter recebido pedidos devido a outros casos idênticos em países latino-americanos.

Sobre José Francisco Schuster (92 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

1 comentário em Adotado e deportado

  1. Muito bom. Que artigo interessante.

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