Os 5 maiores riscos políticos para 2024

2023 ficará conhecido como o ano em que vivemos em perigo. E 2024?

André Oliveira Rodolfo Marques são colunistas do Jornal de Toronto

2023 ficará conhecido, como tantos outros, como o ano em que vivemos em perigo. No Leste Europeu e no Oriente Médio, conflitos bélicos mobilizaram grupos de países em campos opostos e, no plano doméstico, o governo Lula segue com sua saga tormentosa para formar uma coalizão minimamente estável que lhe assegure a necessária governabilidade. Portanto, 2024 sinaliza que terá que enfrentar o legado de problemas complexos deixados por 2023, a maioria dos quais sem perspectiva de resolução fácil ou imediata. Sem querer fazer sombra à Eurasia, a maior empresa de avaliação de risco político do planeta, liderada pelo cientista político norte-americano Ian Bremmer, nosso “instituto Marques & Oliveira” estima, à semelhança de anos anteriores, os 5 cinco maiores riscos políticos – The 5 Top Political Risks – para o Brasil em 2024:

1. Perda do controle fiscal

Este é, sem dúvida, o maior risco para 2024, já que 2023 termina com os embates públicos entre o PT e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre a necessidade de perseguir uma política fiscal de déficit zero. Lula tem enviado sinais contraditórios sobre o que realmente pensa. Nossa avaliação é que se trata de uma jogada astuta de Lula que tem ressaltado a necessidade de realizar gastos públicos para alavancar a economia fazendo acenos ao PT enquanto, na prática, mantém o apoio de fato ao ministro Haddad. O risco é que a economia não ostente os sinais de recuperação desejados em 2024 e Lula, pressionado pelo PT, retire o apoio ao ministro Haddad. Com a perda do controle fiscal, a inflação retorna, os salários perdem valor e a economia do país mergulha em uma espiral caótica.

2. Populistas vencem as eleições municipais nas principais cidades

O ambiente político-institucional pode se degradar se candidatos populistas vencerem as eleições nas principais capitais e cidades do Brasil em 2024. O não cumprimento de promessas inexequíveis de campanha seria colocado na conta do governo federal em razão do eventual desempenho insatisfatório da economia. A polarização política, já acentuada, se aprofundaria, afetando a qualidade do debate público e, por extensão, da própria democracia brasileira.

3. Incremento da violência urbana

Rio de Janeiro e Bahia (mas não só os dois Estados) apresentaram graves problemas de incremento da violência em 2023, provocando uma crise na área de segurança pública. A mobilização da Força Nacional para apoiar a segurança no Rio de Janeiro trouxe resultados pífios. O eventual incremento da violência urbana em 2024 elevará à percepção pública de que a classe política é incapaz de apresentar soluções efetivas para o combate ao crime, uma percepção que não estaria de todo equivocada. Com o (quase) colapso da segurança pública, ganhariam força lideranças políticas populistas, em sua maioria outsiders com discursos calcados na doutrina de defesa da lei e da ordem. Certamente, há muitos candidatos a Rodrigo Duterte entre nós.  

4. Uma guerra e/ou turbulência eleitoral nas fronteiras do Brasil

Nesse caso, o presidente venezuelano Nicolás Maduro determina a invasão da Guiana com objetivo de ocupar o território de Essequibo, visto como historicamente integrante do país de Simon Bolívar. Os Estados Unidos provavelmente reagiriam no campo militar e o governo brasileiro, aliado do regime venezuelano, ficaria em uma posição nada confortável. Todavia, mesmo não ocorrendo a invasão, é razoável acreditar que Maduro, candidato à reeleição, use a questão de Essequibo para se apresentar como defensor da pátria. Sua esperada vitória na eleição em 2024 não seria reconhecida pela oposição, haveria massivos protestos de rua, repressão governamental e, como consequência, a migração para o Brasil, sobretudo através de Roraima, escalaria de modo exponencial com os conhecidos problemas que daí resultam.

5. Crise econômica global e vitória eleitoral de populistas autoritários em países relevantes

Não há sinais claros de que a China vá retomar o crescimento da economia em 2024. Uma das causas para o recuo, segundo muitos especialistas em Relações Internacionais, está no modo de governar autocrático de Xi Jinping. Além disso, uma eventual vitória eleitoral de Donald Trump (caso, também, esteja apto a concorrer) e de outros líderes populistas autoritários europeus resultaria na retirada do apoio econômico e militar à Ucrânia, cenário que fortaleceria os ímpetos expansionistas do Kremlin – a Moldávia e a Geórgia seriam os próximos alvos de conquista de Putin. Em se confirmando tal cenário, as guerras se tornariam endêmicas no Leste Europeu, o que afetaria o comércio mundial, incluindo o Brasil, e serviria como incentivo à conquista territorial para outros líderes autoritários ao redor do planeta – a China ambiciona a retomada de Taiwan, por exemplo.

Sempre desejando o melhor, embora preparados para o pior, desejamos um ótimo 2024 para os editores do Jornal de Toronto e para os brasileiros, especialmente os nossos leitores que vivem no Canadá.

Sobre André Oliveira & Rodolfo Marques (50 artigos)
André Oliveira (à esquerda) é advogado com especialização em Direito Público, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) desde 2009. Rodolfo Marques é analista judiciário, publicitário e jornalista; Mestre (UFPA) e Doutor (UFRGS) em Ciência Política, e professor de Comunicação Social na Universidade da Amazônia e na Faculdade de Estudos Avançados do Pará.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Jornal de Toronto

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading