Diversidade não basta, é preciso igualdade

Livro “Racismo Estrutural” traz reflexão sobre as formas de racismo e como e onde ele funciona

Triccia Dias é advogada

O livro Racismo Estrutural é parte da coleção “Feminismos Plurais”, idealizado pela ilustre Djamila Ribeiro. O livro foi escrito por Silvio Luiz de Almeida que, além de advogado, é filósofo e professor universitário. Para mim, que sou da área jurídica, ele é um ícone, uma potência quando se trata de falar sobre a questão racial. Além de tudo, frise-se, é o presidente do Instituto Luiz Gama, organização de direitos humanos voltada à defesa jurídica das minorias e de causas populares.

O autor, muito bem fundamentado, afirma que o racismo é sempre estrutural, se tornando cotidiano em nossa sociedade, presente em todos os âmbitos, classes e organizações políticas e econômicas; criando, desta forma, toda a desigualdade conhecida e vivida por nós brasileiros. A obra foi estruturada em 5 capítulos, defendendo que “o significado de raça e de racismo, bem como suas terríveis consequências, exigem dos pesquisadores e pesquisadoras um sólido conhecimento da teoria social” (p. 20).

No capítulo 1, chamado “Raça e Racismo”, o Silvio destaca a importância de se entender o que significa raça, para então partir para o racismo, defendendo que toda a construção da sociedade é baseada com a história da raça. Ele nos explica que o racismo estrutural nasceu do institucional, entendendo que o racismo ocorre nas instituições porque encontra força na sociedade, que é totalmente racista.

No capítulo 2, “Racismo e Ideologia”, o autor destaca ainda que a escravidão negra é a base para a formação da sociedade, pois foi onde ficaram definidas classes sociais, hierarquias e poderes. Na época da escravidão e pós abolição, ser negro era insulto – até os dias atuais, se observarmos, ser negro é sinônimo de criminalidade, subempregos e pobreza. Portanto, “o racismo constitui todo um complexo imaginário social que a todo momento é reforçado pelos meios de comunicação, pela indústria cultural e pelo sistema educacional” (p. 65).

No capítulo 3, “Racismo e Política”, aduz que o Estado alimenta e reproduz o racismo por meio de suas organizações estatais, sustentando e dando força aos grupos do poder. Ele exemplifica com o apartheid e a segregação vivida nos Estados Unidos.

O capítulo 4, “Racismo e Direito”, mostra como o Direito atua como instrumento de controle social, a serviço de quem detém o poder. Se quem está no poder é racista, haverá maior segregação e zero políticas públicas ou um olhar mais humano e ativo para os negros e a realidade sofrida.

No capítulo 5, “Racismo e Economia”, o autor afirma “que a raça é um marcador determinante da desigualdade econômica” (p. 156). Verificamos isso todos os dias quando vemos pessoas negras exercendo funções subalternas e em subempregos, ou quando vemos que pessoas pretas enfrentam maior dificuldade para completar a escolarização, o que reforça o ciclo vicioso e as dificuldades de mudança social. Mesmo aqueles que possuem formação acadêmica, em geral, encaram dificuldades no mercado de trabalho.

O racismo foi e tem sido muito cruel para nós negros. Ele me calou por muitos anos. Calou a minha inteligência, autoestima, beleza, capacidade e principalmente calou a minha voz. Mas aprendi a falar e ser ouvida. Perceber vozes negras tão importantes, imponentes e jovens trazendo abordagens mais críticas e reais tem sido de extrema importância para mim, e isso Silvio fez muito bem em sua obra. Não apenas trazendo reflexão sobre as formas de racismo e como e onde ele funciona, mas também explicitando toda a estrutura sutil do racismo estrutural, que é naturalizado pela sociedade e vem sendo difícil de ser quebrado.

Você pode adquirir o livro Racismo Estrutural, de Silvio Almeida, pelo website da Canoa Cultural.

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