Imigrar é um ato político

Escolher o país melhor para imigrar passa pela avaliação de seus valores políticos e sociais

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

A imigração também deve ser pensada como um ato profundamente político que uma pessoa toma, como uma das decisões mais radicais de sua vida. Imigrar, como um divórcio ou uma demissão, é chegar à conclusão de que sua vida é insustentável e sem o futuro desejado onde você está, e por isso é necessária uma mudança de grande porte, apesar de todo o custo que ela acarreta: recomeçar do zero, longe de familiares, de amigos, de ambientes de que você gosta, de paladares, do clima e muito mais. Deixar seu país ou deixar a empresa pode não significar que você não o(a) ama, apenas que, no momento, você está em um nível de desacordo com a administração que torna a situação insustentável. E isto não é político?

O segundo ato desta peça é encontrar um país onde morar. Evidentemente, entre os mais de 200 países do mundo, será o que melhor represente o que você espera para o seu futuro, ou seja, o que tem a administração que mais se afine com seus objetivos. Certamente, um critério importante será ir para um país que esteja em melhor situação do que o Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano das Organização das Nações Unidas (ONU), como um bom indicador de melhor administração. Contudo, com o Brasil estando na 87ª posição em 2021, não quer dizer que há 86 opções melhores, pois há outras circunstâncias em jogo.

Uma que vejo como a principal seria a receptividade a imigrantes e a sua aceitação no mercado do trabalho. Assim, por exemplo, apesar de todo o glamour que cerca Mônaco, não o vejo no radar de potenciais imigrantes, ao menos em número expressivo. Continuando sobre empatia a imigrantes, aliás, sequer o país ser membro do G7 significa que a imigração possa ocorrer de olhos fechados, pois, mais uma vez, há grandes diferenças entre eles neste quesito, e a escolha é uma decisão… política do imigrante. Os Estados Unidos veem com maus olhos os imigrantes que tentam cruzar pela sua fronteira do México, e o tratamento que dá a eles já foi alvo de condenação muitas vezes. Queriam até fazer um muro para espantar imigrantes. Este seria o país de sua escolha?

Mais: os Estados Unidos são o país da saúde privada, da simples inexistência da licença-maternidade e da venda de armas liberada, causando, volta e meia, tiroteios e muitas mortes, causando comoção mundial. O país também é daqueles que se esforça em manter os impostos no mínimo possível, como igualmente defendem alguns partidos conservadores no Brasil. Você está de acordo, ou prefere a opinião do ex-presidente uruguaio José Mujica, que dizia que “os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social”?

Pois a BBC perguntou se o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau não seria o Mujica canadense, em reportagem logo após a posse para o primeiro mandato, em 2015. Entre cinco atitudes progressistas, Trudeau disse que tem orgulho de ser feminista, e nomeou mulheres para a metade de seus ministérios; colocou como prioridade uma boa relação os povos indígenas; legalizou a maconha; aumentou os impostos para os ricos; e se comprometeu a receber refugiados, em número muito maior do que os EUA e o Brasil. Portanto, há grandes diferenças, mesmo entre países do chamado Primeiro Mundo, e escolher para onde imigrar inclui um apoio implícito a essas políticas, indicando que são elas que, na sua opinião, propiciam melhores condições de vida para o povo.

Agora, o que se espera do imigrante é que mantenha sua coerência política. Se defende o sistema do país para onde imigrou, por o considerar melhor a ponto de deixar sua terra por ele, a lógica exige que defenda que este sistema é o que levaria ao desenvolvimento de seu país de origem. Não teria sentido pensar que “encontrei este sistema melhor para mim, mas não quero que ele exista para meus familiares, amigos e demais compatriotas”. Seria uma atitude extremamente egoísta desejar o melhor para si e o pior para os que ficaram para trás. O pior é que atitudes assim existem, e são, infelizmente, numerosas. Assim, espero que os imigrantes adquiram consciência e desejem para os que estão em seus países de origem as mesmas vantagens que obtiveram em seu país de adoção, votando em quem defenda medidas mais assemelhadas. Se acha que o seu país de origem está com uma política melhor do que a de seu novo, era o caso de voltar, não é?

Sobre José Francisco Schuster (65 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

1 comentário em Imigrar é um ato político

  1. Você escreve tudo o que eu quero falar … gente perfeito!

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