“Brutta Figura” abre portas para a Itália e para dentro

Alguma coisa em mim mudou naquele instante enquanto eu devorava o seu romance autobiográfico

por Julia Arruda

“Aquele quarto genérico não era meu quarto, como nenhum fora nos últimos vinte e poucos dias. Como, agora eu entendia, o quarto do apartamento dos meus pais também não era. Eu não tinha quarto, eu não era um quarto, eu não era mais, de repente, um lugar. Talvez meu lugar fosse aquele vazio em mim, que me fazia olhar tudo à minha volta com uma entorpecida serenidade. Ou talvez clareza. Não sabia dizer.”

Assim como Ana Elisa Granziera, alguma coisa em mim mudou naquele instante enquanto eu devorava o seu romance autobiográfico Brutta Figura. Ela, se descobrindo aos 25 anos em um mochilão pela Itália. Eu, mais perdida do que nunca em todas as questões que a pandemia trouxe, em isolamento no meu one plus den minúsculo em Midtown Toronto.

Enquanto lia, eu fui transportada. Estava sentada numa trattoria escondida no meio de uma ruela qualquer, bebericando um limoncello enquanto lia uma amiga relatar seus perrengues, lembranças e epifanias com um senso de humor incomparável. Salivando com a descrição de cada prato, me preenchendo com cada sensação descrita. Eu viajei junto com ela.

E viajar é um caminho sem volta, como todo imigrante sabe. Nos inspira enquanto nos tira da zona de conforto, nos faz realinhar as prioridades, recarregar as baterias, questionar o rotineiro, criar espaço para novos interesses fazerem morada. Nos aproxima de quem estamos destinados a ser. Nunca mais seremos os mesmos depois de uma viagem, e isso era tudo o que eu precisava.

Assim como Ana, escrevi na minha agenda decidida: “ESSE ANO VOU PARA A ITÁLIA”.

E fui mesmo. Quer dizer, quase. Fui no ano seguinte. O motivo vocês já sabem: Pandemia.

E Ana estava comigo em cada esquina, em cada gelato, e em cada bolha nova que fiz nos meus pés de tanto andar. Estava comigo, literalmente, online enquanto eu mandava fotos da comida inesquecível da mesma Trattoria Zà Zà em que ela fora tantos anos antes. Um lugar que agora dividíamos. Quer dizer, não mais um lugar, pois cada canto mostra que a Itália vai além. Ela é um estilo de vida a ser compartilhado, um convite para apreciar o tempo presente, apresentados por Ana com maestria.

É um privilégio poder prestigiar e enaltecer artistas vivos. Apoiar seu trabalho, elogiar para os amigos, entrar em contato e agradecer por sua entrega ao universo. Dizer que suas palavras marcaram tanto quanto uma viagem. Privilégio maior ainda é tê-los por perto, aqui mesmo em Ontário. Dizer tudo isso em um encontro literário. Sentada numa mesa curtindo um cappuccino então, nem se fala.

Sim, eu tive esse privilégio. Infelizmente o cappuccino não era tão bom quanto um italiano, mas ainda valeu.

Em sua dedicatória a mim, Ana escreveu: “Que o universo continue a abrir portas e que tenhamos sempre coragem de passar por elas”.

Que Brutta Figura também te abra portas, assim como foi para a mim. E que você tenha sempre coragem de passar por elas.

Julia Arruda é escritora e editou o projeto The Bubble durante a pandemia.

Você pode adquirir o livro Brutta Figura, de Ana Elisa Granziera, pelo website da Canoa Cultural.

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