A insegurança endêmica no Brasil

Uma das diferenças mais notáveis que o imigrante brasileiro encontra ao chegar no Canadá é segurança

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Uma das diferenças mais notáveis que o imigrante brasileiro encontra ao chegar no Canadá é que a preocupação obsessiva com a segurança que temos no Brasil – que lá se justifica e foi naturalizada – não é algo normal, que faça parte da vida em todo o planeta. Descobre-se aqui que é possível viver com cuidados corriqueiros de segurança, não como algo que é um ponto de preocupação e de estresse permanentes.

Choca, ao chegar no Canadá, os jardins contínuos das casas, sem muros nem grades dividindo-os, os amplos janelões nas casas e estabelecimentos comerciais, inclusive bancos, vendo-se inclusive do outro lado, próximos ao vidro, escrivaninhas com computadores e impressoras. Tudo isso fechado por uma prosaica chave comum. Uma diferença imensa do que é chegar em casa no Brasil, onde muitos têm inclusive o costume de dar uma volta na quadra com o carro, averiguando a segurança, antes de entrar na garagem. Cheguei a ver guardas nas guaritas de condomínios com nada menos do que fuzis!

Eu mesmo, para chegar ao meu modesto apartamento, tinha que usar 1) a chave do portão do jardim, 2) a chave da porta do edifício, 3) a chave da grade da escada, 4 e 5) duas chaves quádruplas da grade da porta do apartamento, e 6) a chave da porta do apartamento. Ufa! Impossível chegar apressado para ir ao banheiro, portanto, pois toma um belo tempo todo este processo.

Nas ruas brasileiras, agimos como se fôssemos seguranças de carros-fortes, com olhos e ouvidos com atenção de radar a tudo o que acontece em volta e segurando com toda a força bolsas e sacolas, de preferência contra o peito, mesmo carregando apenas valores mínimos. Muitas vezes, trocamos de calçada se vislumbramos alguém em atitude que pareça suspeita, e há muito preconceito embutido nisso. Aqui, é normal muita gente caminhando nas ruas e tomando ônibus às duas da madrugada, quando os bares fecham, inclusive mulheres desacompanhadas, sem maiores preocupações.

O mais curioso é que, no Brasil, a insegurança prossegue dentro de nossas próprias casas. Para começar, chaveamos a porta por dentro e retiramos a chave, por precaução à possibilidade de um ladrão entrar pela janela e sair pela porta. Aqui no Canadá, do lado de dentro da porta de entrada é uma tranca simples, que qualquer pessoa, inclusive uma criança, pode abrir, o que é essencial em emergências, como num incêndio.

Claro que o Canadá não é perfeito: furtaram do meu locker (depósito), no edifício em que morava, minha árvore de Natal e meu cooler (caixa térmica) dos piqueniques de verão. Entretanto, é uma tranquilidade saber que, fora casos de problemas psicológicos, não há razão para furtos e assaltos simplesmente em busca de dinheiro para a próxima refeição. Num país com melhor igualdade social, a população não fica refém da insegurança.

Sobre José Francisco Schuster (54 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

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