Você sobreviveu ao Covid-19?

Sobreviver à pandemia vai muito além de estar vivo lendo esse texto agora

Foto: Petanos_Pixabay.

Gui Freitas é colunista do Jornal de Toronto

Sobreviver à pandemia vai muito além de estar vivo lendo esse texto agora, ou ter tido alta após uma internação sofrida pelo Covid-19. Ser um sobrevivente é amargar as dores das perdas e o inconformismo com a ineficiência das políticas públicas de saúde. É ver seu sonho ser adiado, reformulado, ou simplesmente cancelado. É fazer escolhas difíceis, antes impensáveis. É se readaptar a um novo estilo de vida, a um novo modelo de relação com as pessoas e com o mundo.

O paciente é o centro e o foco da atenção, mas ele está inserido em um contexto familiar, social e econômico. E quando ele tem alta, ele volta para uma família também adoecida, exausta, estressada, com perdas financeiras e emocionais. Para alguns, a fé é um caminho para encontrar forças para ir adiante; para outros, o evolucionismo o qualificou como mais adaptável, então ele tem que seguir em frente. Mas as sequelas psíquicas da pandemia podem ser tão sérias quanto as pulmonares. E trabalhar as emoções pode ser mais doloroso e demorado que as várias sessões de fisioterapia pós alta.

O mundo não será o mesmo. Nem nós, os sobreviventes, o seremos. Cada um na sua história, na sua experiência, de alguma maneira vai renascer após esse período. O paciente, que literalmente sobreviveu à infecção; os profissionais de saúde, que travam batalhas diárias pela sobrevivência de seus pacientes e pela sua própria; as famílias, que tentam se encontrar em meio à dor e à insegurança; e a população não infectada, que para não se contaminar pelo Covid, experimentou sua impotência ao ver o sofrimento alheio – seja físico ou emocional, pela doença ou pela economia – e teve que entrar em contato com o seu “eu” mais primitivo de emoções durante seu confinamento. Todos somos sobreviventes nessa guerra sem armas.

Sobre Gia Freitas (14 artigos)
Gia é brasileira, médica pediatra, esposa e mãe de dois filhos. Vivendo em Toronto, na eterna jornada do auto-conhecimento. Apaixonada e idealista, tem na leitura seu refúgio e na escrita sua liberdade.

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