Leis que não me favorecem não se aplicam a mim

Existe um problema universal, mas que se acentua no Brasil, de leis não “pegarem”

Foto: David Peterson.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Existe um problema universal, mas que se acentua no Brasil, de leis não “pegarem”. A falta de preocupação com o bem comum faz com que exista um expressivo grupo que só olha para o próprio umbigo, fazendo uma seleção das leis que pretende cumprir, uma vez que são de sua conveniência. As demais são simplesmente ignoradas, por prejudicarem seus interesses pessoais.

Já foi comprovado que sociedades anárquicas não funcionam. O “salve-se quem puder” impede que a engrenagem da sociedade avance, na medida em que cada um puxa para um lado. Claramente, os poderosos acabam beneficiados nesse sistema, pela possibilidade muito maior de verem seus interesses atendidos. Reconhece-se que, por outro lado, há leis injustas que precisam ser combatidas, mas isso deve ser feito normalmente pelo processo legislativo próprio. Em casos excepcionais, uma desobediência civil já deve ter sido legitimada por um amplo apoio da sociedade.

Há muito tempo se luta com quem só obedece a lei se percebe que há uma fiscalização presente. Se o policial não está olhando, não se constrange de dirigir embriagado ou de ultrapassar o limite de velocidade. Contando que não haverá fiscalização, abre um negócio sem a documentação necessária, o alvará dos bombeiros, sonega tributos e desmata sem dó.

Com a pandemia, apesar de diariamente sermos alertados para a necessidade dos cuidados básicos de restringirmos as saídas de casa, mantermos o distanciamento necessário, usar máscara e higienizarmos as mãos, depois de praticamente um ano, parece que é novidade e não é sério. Assim, temos muitos ainda viajando sem necessidade, praias lotadas, festas clandestinas e gente que usa a máscara como decoração no queixo, sem cobrir nem o nariz, nem a boca. Pior são alguns políticos, que deveriam dar o exemplo, mas que são os primeiros a descumprirem as normas, aglomerando, não usando máscara e, pasmem, furando a fila da vacina.

Sem o apoio da sociedade às medidas defendidas pela ciência, como as únicas capazes de combater a pandemia, uma melhora no quadro se torna muito mais lenta, com gráficos em alta, em vez da esperada queda, e deixando um rastro de dor e mortes. É um grupo que ignora as leis quando não são do seu interesse, mas que busca brechas sem lógica para que seja incluído quando tais leis podem beneficiá-lo.

Como sociedade, poderíamos estar em patamar muito melhor em todos os sentidos se não fosse a falta de empatia e o egoísmo gritantes. Esta grande crise mundial, com uma pausa que abriu tempo para reflexão, é um alerta que deveria ser aproveitado para promover uma evolução no comportamento humano. Fica cada vez mais evidente que o mundo não se sustenta com crescimentos individuais de uma minoria, sendo essencial a evolução coletiva.

Por exemplo, é claro que não haverá tranquilidade em relação à saúde enquanto a quase totalidade do planeta não estiver vacinada. Privilegiar pequenos grupos ou países não basta, pois o vírus acaba voltando. Da mesma maneira, enquanto não houver políticas robustas de combate à miséria, de promoção da preservação ambiental e de acesso à educação de qualidade, estaremos, em vez de avançar, regredindo.

É necessário cada vez mais cobrar de nossos representantes que tomem atitudes, de forma urgente e séria, apoiadas na ciência. Mas também é fundamental que cada um dê a sua contribuição individual em prol de um mundo melhor. Fique em casa.

Sobre José Francisco Schuster (50 artigos)
Com quase 40 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Ao longo dos últimos 10 anos, tem produzido programas de rádio para a comunidade brasileira no Canadá, como o "Fala, Brasil" e o "Noites da CHIN - Brasil". Schuster agora comanda o programa "Fala Toronto", nos estúdios do Jornal de Toronto.

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