O papel da comunidade sino-canadense na Segunda Guerra Mundial

A Força Expedicionária 136

André Sena é doutor em História Política pela UERJ

Da série “Flashes da História Canadense

Em tempos de Covid-19, onde estadistas buscam influenciar a opinião pública contra a China, podemos afirmar que buscar compreender o papel das diversas comunidades chinesas no norte do continente americano é mais do que um dever historiográfico: é uma necessidade.

Desde o início da pandemia, a sinofobia vem crescendo de forma assustadora nessas paragens, e o Canadá não está imune a esse vírus que pode ser tão perigoso quanto o que estamos todos juntos enfrentando. Vários foram os depoimentos de chineses-canadenses que se viram alvo de olhares derrogatórios e atitudes de preconceito no início da pandemia, especialmente quando as relações entre a China e o Canadá já não estavam exatamente saudáveis, com cidadãos canadenses presos na China e o grave problema com uma executiva de uma megacorporação chinesa por aqui.

Nesse sentido, os estudos históricos sobre o papel da comunidade sino-canadense podem nos ajudar muito a dimensionar as contribuições que as mais diversas diásporas chinesas deram e vem dando à sociedade canadense em seus mais variados aspectos. A história da Force 136/SOE pode ser um termômetro histórico precioso para compreendermos melhor essa questão.

Com uma história de migração, assentamento e ocupação do território canadense que remonta ao imediato período pós-confederado de 1867, famílias chinesas se estabeleceram no Canadá, especialmente na Colúmbia Britânica, atuando principalmente na construção da maior ferrovia que ligou o país, ad mare usque mare por todo o território confederado, de Montreal/Toronto a Vancouver, na década de 70 do século XIX. Não conseguiríamos imaginar a consolidação territorial pensada e organizada pelos fundadores do Canadá moderno sem a presença da mão de obra chinesa nesta empreitada.

Vindos de um Império asiático dilacerado por guerras que envolviam ópio e a famosa diplomacia da canhoneira Britânica, que gerou enclaves importantes como Hong Kong, Xangai e Singapura, estes chineses buscavam no Canadá um recomeço de vida e encontraram por aqui um profundo processo de rejeição cultural e racial. Entre os anos de 1870 e 1923 (quando a imigração chinesa para cá foi definitivamente proibida por Ottawa com o Chinese Exclusion Act) a população canadense de origem chinesa foi alvo de linchamentos públicos, banimento de profissões como médicos e advogados e até mesmo de ataques de uma funesta Ku Klux Klan canadense, que insistia na construção de um país exclusivamente branco.

Toda essa atmosfera política e social de exclusão não foi capaz de desqualificar e destruir esses homens e mulheres, que viram na eclosão da Segunda Guerra Mundial uma oportunidade ímpar de demonstrar não apenas a sua integração, mas sua lealdade ao Canadá. A participação do Canadá na Primeira Guerra Mundial o colocou no centro das potências internacionais do período; quando Hitler declarou, 20 anos depois, guerra à Europa em 1939, o país foi imediatamente instado a entrar no teatro de operações. A comunidade chinesa dividiu-se em dois grandes partidos com relação à questão: o primeiro, minoritário, entendia que a guerra não era um problema da sua comunidade, que vinha sofrendo todo tipo de destrato e mecanismos de exclusão desde sua chegada ao país 70 anos antes; já o segundo partido, de caráter majoritário, compreendia que a guerra era a oportunidade para uma dupla vitória: a) demonstrar a lealdade dos chineses residentes no Canadá ao país que os “acolheu” e b) naturalizar a presença chinesa no Canadá no pós-guerra, criando definitivamente uma comunidade chinesa canadense com direitos e deveres estabelecidos.

Embora inicialmente impedidos de se alistar no exército canadense para lutar nos campos da Europa, a situação dos chineses no Canadá se alteraria quando as agressões se alastrassem para o Pacífico a partir de 1941, devido ao bombardeio de Pearl Harbor e a conquista de Hong Kong pelos japoneses. Os estrategistas canadenses entenderam que os chineses no Canadá teriam um papel tático fundamental para combater os japoneses nas florestas da Birmânia, China, Malásia e Índia, e uma força expedicionária de elite foi recrutada dentro da comunidade sino-canadense. Esta entrará para a história do país como a “Força 136 do Serviço de Operações Executivas do Estado Maior das Forças Armadas Canadenses”.

Force136 em Kuala Lumpur, em novembro de 1945. Fonte: Chinese Canadian Military Museum.

Treinados em um primeiro momento em Okanagan Lake, na Colúmbia Britânica, 150 chineses foram rapidamente transformados em soldados de elite com táticas de guerrilha adquiridas de forma relâmpago, fluência no dialeto cantonês, táticas de explosão, demolição e treinamento de resistências locais. Na segunda etapa do treinamento, ocorrida na Austrália, os soldados da Força 136 foram conscientizados de que jamais seriam tratados pelo inimigo sob as mesmas convenções que soldados canadenses brancos recebiam dos japoneses. Se fossem pegos, a orientação era o suicídio com cianureto, um final melhor do que a truculência nipônica que os consideraria, antes de tudo, traidores.

A Força 136 foi tão bem-sucedida no teatro de operações que se manteve ativa ao longo de toda a guerra em diversas operações táticas e de guerrilha, auxiliando na montagem de resistências e milícias locais que se estenderam de Hong Kong a Kuala Lumpur, e continuaram atuantes mesmo depois da rendição incondicional dos japoneses diante de Hiroshima e Nagasaki. Foram esses chineses-canadenses que foram responsáveis por boa parte das operações que desmontavam os campos de concentração na Ásia para prisioneiros de guerra britânicos e canadenses, bem como na organização dos campos de prisioneiros japoneses, após perderem a guerra em 1945.

Dois anos após o final da guerra – não sem uma ativa pressão sobre Ottawa por parte dos chineses residentes no Canadá – a comunidade sino-canadense adquiria cidadania plena e o direito de voto no país, elegendo Douglas Jung (ex-integrante da Força 136) membro do parlamento em 1957. Curiosamente, esta história aparece pouco nos livros didáticos canadenses e até mesmo adolescentes e jovens sino-canadenses nos dias de hoje parecem não saber quase nada sobre o heroísmo de seus avós na defesa do Canadá, em uma guerra que não está tão distante de nós no tempo.

Por essa razão, vale muito a pena lembrarmos da Força 136 quando passearmos por Chinatown em Toronto, ou ouvirmos certas declarações equivocadas nos meios de comunicação e nas redes sociais, que disseminam preconceito e ódio, sempre desnecessários.

A Força 136 é um marco da história canadense. Um marco que definiu a atuação do país em uma das mais importantes conflagrações já ocorridas no cenário mundial.

Sobre André Sena (7 artigos)
André Sena é Doutor em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de História e Relações Internacionais e atualmente desenvolve pesquisa sobre Relações Diplomáticas Brasil-Canadá e História do Brasil Contemporâneo.

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