Primaverou no verão

Independente do Covid-19, algumas coisas não mudaram. O mundo continuou a girar e as árvores encheram-se de vida e os jardins floriram.

Luiza Sobral é colunista do Jornal de Toronto

Entre as coisas mais bonitas do Canadá está a beleza distinta de cada estação: o branco do inverno, o verde do verão, e as cores maravilhosas de outono. Já a primavera começa chuvosa, mas trazendo também os primeiros pingos de alegria com as temperaturas positivas. Timidamente as árvores começam a se encher de vida e as primeiras flores começam a desabrochar.

E nós, humanos pensantes em estado de hibernação, também aproveitamos para sair do casulo e dar início ao ano. Lembra que lá na terrinha o ano só começa após o Carnaval? Pois bem, aqui podemos considerar que aqui a vida dá o start na primavera.

Esse ano, porém, a vida mudou. 2020 soava tão bonito, futurístico e redondo, dando início a uma nova década e, como sempre, trazendo a esperança de um mundo melhor. Mas a primavera de vinte-vinte, que oficialmente começou no Hemisfério Norte em 19 de março, veio junto com um vírus que foi mais avassalador do que qualquer buggy do milênio. A pandemia do coronavírus nasceu em dezembro, todavia lá do outro lado do mundo. A princípio não demos muita bola. O Brasil continuou com o Carnaval. O Canadá noticiava tempestades de neve e crises no TTC.

E foi logo quando estávamos desbravando o fim do frio, e nos preparando para sair nas ruas, que veio a ordem inédita: “fiquem em casa”.

A realidade de trabalho, da rotina familiar e da vida social mudou num piscar de olhos. Termos como “distanciamento”, “isolamento”, “pandemia”, “quarentena” e “lockdown” viraram comuns pelo mundo. Milhares de vidas tragicamente sucumbiram.

Mas, independente do Covid-19, algumas coisas não mudaram. O mundo continuou a girar. As árvores encheram-se de vida e os jardins floriram. E no grande norte aprendemos expressões que só realmente compreende quem sobrevive a um inverno rigoroso: “A primavera primaverou” (“spring has sprung”), os relógios “primaveram à frente” (“spring forward”; já no outono a hora “fall back”), e é hora de fazer nosso “spring cleaning”. A tradução é fácil, “a limpeza da primavera”; porém, você sabe o significado real dessa expressão?

A tradição dita o óbvio: nos países mais frios, é nessa época que a temperatura fica confortável o suficiente para abrirmos as janelas e portas, lavar o chão, limpar a garagem. Aposto que você já sentiu a necessidade de colocar certas peças para secar ao ar livre. Cachecóis, jaquetas, almofadas, e mais: são muitos os itens que precisam da luz do sol para reviver.

Inclusive nós.

Marie Kondo, a escritora japonesa que ficou famosa mundialmente com suas técnicas de organização, diz que “a vida real começa depois de colocar a casa em ordem”. Além da casa, a primavera é a estação para colocar sua cabeça no lugar.

Você teve tempo para organizar a casa. Agora, com a economia e a cidade reabrindo, não esqueça daquele que mora dentro do seu corpo. Você.

Sair, respirar, e meditar como o seu interior ficou durante o isolamento, são caminhos de como começar mais um ano com esperança de terminar melhor. Plante na primavera para colher frutos na alegria do verão. Talvez ainda dê tempo de 2020 se tornar o ano mais extraordinário de nossas vidas.

Aproveite para contatar amigos, fazer caminhadas, tomar um café na praça para um bom people watching. Também fique de olho na página do Jornal de Toronto no Facebook, onde sempre postamos dicas legais de brasileiros para brasileiros. Distanciamento talvez, mas isolamento nunca.

E, claro, limpe a casa, o carro, a bicicleta, o armário. Jogue o que não mais te pertence, para dar espaço ao novo. Inspire-se na Kondo, que também diz que “o espaço em que vivemos deve ser para a pessoa que estamos nos tornando agora, não para a pessoa que éramos no passado”.

Primavere-se – nem que esse ano isso aconteça já no verão.

Sobre Luiza Sobral (50 artigos)
Luiza é paulista de nascença, baiana de coração, e adoraria morar no Rio. Viajando o mundo em 2008, acabou conhecendo seu marido no Canadá. Está em Toronto desde 2011, onde se certificou como jornalista. Ama escrever, principalmente sobre viagens e outras maravilhas da vida.

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