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Amigo


Existem dois tipos de amigos. O amigo camarada e o amigo, simplesmente amigo.

Erasmo e Roberto Carlos nos anos 60.

JT Palhares é cronista

Existem dois tipos de amigos. O amigo camarada e o amigo, simplesmente amigo.

Do amigo camarada quase não se tem registros, pouco foi publicado. O que foi dito pelo amigo camarada morrerá com o amigo. Amizade é coisa íntima, não se expõe como rabanete em banca de feira.

O exemplo clássico do amigo de fé, camarada, está na amizade entre Roberto & Erasmo. O Erasmo, fiel à letra da música, liga no máximo três vezes ao ano para o Roberto Carlos: uma no aniversário do Rei, outra no Natal e uma vez ou outra para desejar feliz ano novo.

O que atrapalha a amizade é a proximidade.

Para o amigo não existe tempo ruim. Seja sábado, domingo ou feriado. O amigo está sempre conectado. Logo de manhãzinha, ele te manda um zap desejando “Bom dia!”; sem contar os inúmeros links do dia: “Rapaz, você viu o vídeo da Luana?”.

O amigo gosta muito de cerveja e churrasco. Principalmente se os comes & bebes vierem na modalidade 0800. O amigo chega na casa do outro sem avisar, a qualquer hora do dia, e vai logo entrando, abre a geladeira alheia e constata que só tem uma garrafa escura, trincando de gelada, cerveja belga, da marca Westvleteren Abt 12, que custa por volta de $50 euros. Com a garrafa no bico, depois de beber a metade, ele pergunta: “Ué, não tem Skol?!”.

Infelizmente, o amigo não é muito exigente em matéria de cerveja. Gelada e de graça ele bebe qualquer uma. “Cerveja quente, eu aceito”, diz o amigo estalando os beiços, “só se for pra levar pra casa”.

Como torcedor fanático do Galo, o amigo faz questão de acompanhar o campeonato de futebol na casa de outro atleticano sofredor. O amigo é um folgado e não se faz de rogado. Seu lema: “Su casa, mi casa”. E tão logo você se retira pra ir buscar um tira-gosto na cozinha, ele grita lá da sala: “Traz mais cerveja!”.

Na ausência temporária do outro, o amigo se apodera da poltrona predileta do dono da casa, em cima da qual solta vapores fétidos, que apitariam feito traques de São João não fosse a maneira educada como ele os abafa, metendo duas almofadas debaixo do rabo.

O amigo faz a maior publicidade de tê-lo (a você) como amigo. No inverno ou no verão, no campo ou na praia, na chuva ou na fazenda, o amigo não perde a oportunidade de falar do outro, sangue bom, brother, gente fina, peça rara. Bem ou mal. Ele não economiza palavras, tece longos comentários sobre a personalidade do seu próximo, sem modéstia, utilizando a si mesmo como medida de homem perfeito. O amigo é obcecado por cultivar, cavoucar, estercar e irrigar suas amizades.

O amigo é Senhor da Razão Absoluta. Perto dele, Hegel, com sua vã filosofia idealista, não passaria de um charreteiro de praça. O amigo está sempre à frente do seu tempo ad seculorun.

Quando convidado para uma reunião, o amigo é sempre o último a chegar e o primeiro a sair. Mesmo assim, o amigo exige a palavra, senão ele tem um ataque apoplético, a cara fica vermelha, começa a babar e espumar, arriscando-se a engolir a própria língua e morrer asfixiado. Melhor deixar ele falar. Microfone na mão, o amigo solta uma bomba verborrágica, lacra o debate, e logo em seguida pede licença para deixar o recinto (com a desculpa de outro compromisso).

Dizem que o bom companheiro não conta o dinheiro. O amigo é um excelente parceiro, não faz conta do suor alheio. Se você lhe emprestar alguma grana, não ouse cobrá-lo. Isso não é atitude de amizade!

Não vai chover, mas se você for se encontrar com o amigo não se esqueça do guarda-chuva.

Muito cuidado ao conversar com o amigo. Ele tem a mania de falar de pertinho. Primeiro, o amigo põe as duas mãos nos ombros da vítima, olho no olho, e vai empurrando-a, até a parede. Em seguida, ele começa a estalar a língua como uma metralhadora Gatling.

Tamanha proximidade permite ao falastrão bombardear a presa com milhões de
perdigotos por segundo – material vital para a colônia que o amigo está cultivando no rosto do ouvinte. Depois de alguns anos de frequência dialógica, você, vítima de amizade pegajosa, examine atentamente sua face diante do espelho: repare como a pele de seu rosto está salpicada de manchas esverdeadas, pequeninas, incuráveis. Logo, logo, seu nariz vai começar a inchar. A boa notícia é que o amigo, ao lhe transmitir terrível doença, permanecerá vivo em sua memória, mesmo três dias depois (se você viver até lá) de ele ter partido deste mundo para o raio que o parta.

Aconteceu antes da pandemia. São três horas da madrugada. Acabei de chegar de viagem internacional, depois de trinta horas distribuídas entre o avião, longa espera em aeroportos, três conexões e mais quatro horas de ônibus até chegar em casa. Desabo na cama e apago. Vibra o celular, insistentemente. A contragosto, pego o aparelho e atendo.

Do outro lado, o amigo. Você pergunta, puto da vida.

— O que foi? O que você quer?

— Calma, não quero nada. “Eu só preciso saber, como vai… vooooocêêêê” (entra os metais da orquestra do Roberto Carlos).

 

Ouça o podcast “Amizade e as grandes parcerias na música“, no programa “Conversa Fora”.

 

 

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