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Coronaváirus em ritmo de aventura


A maior sensação do ano infelizmente está na praça.


Cristiano de Oliveira é colunista do Jornal de Toronto

A maior sensação do ano infelizmente está na praça. O Coronaváirus (que é o coronavírus que resolveu morar no Canadá e te mandou uma mensagem pedindo umas dicas) chegou pra ocupar pelo menos 60% do tempo da Retrospectiva 2020 em dezembro. Mas isso se houver Retrospectiva e show do Roberto Carlos, pois o vírus está mudando tudo de um jeito tão agressivo e inédito que eu já estou me preparando para um especial de fim de ano com Benito di Paula. Ou com a Roda de Samba de Toronto, pois esse seria excelente pra contribuir com o isolamento social: quando a gente toca, todo mundo corre pra casa.

Vírus no começo sempre é piada. A gripe suína rendeu 700 memes com porco. A AIDS era chamada de “câncer gay” no início da década de 80 e consequentemente tratada com o preconceito e a galhofa de sempre. O Corona pra brasileiro foi um prato cheio, pois envolveu a cerveja, a cantora, e só não ressuscitaram o jingle “apanha o sabonete” das duchas Corona porque quem ainda se lembra disso não sabe postar vídeo ou fazer meme na internet – já basta a luta que foi aprender a usar controle remoto. Mas é a primeira vez que eu vejo o humor brasileiro começar a perder fôlego frente ao cair da casa.

Agora assustou. Piada daqui, piada de lá, e nisso voos são cancelados: até aí tudo bem, até a neve já fechou aeroporto. Mas daí futebol e novela também param: nesse momento todo mundo sentiu uma coceirinha na garganta. A minha ficha finalmente caiu na etapa seguinte, quando o meu modo de vida foi duramente afetado: o fechamento dos bares. A partir daí, todo mundo só conseguiu dormir depois de olhar debaixo da cama. Foi quando se acendeu a luz vermelha, e se apagou a casa da luz vermelha, porque se deixar, o Coronaváirus também vai lá tomar umazinha com a Helena de Curvelo. A casa caiu e passamos à próxima etapa: o isolamento.

Pra começar, o povo atacou os supermercados parecendo que ia se trancar no bunker da guerra nuclear. E adianta alguma coisa? Até parece que esse monte de comedor de hambúrguer gourmet acompanhado de cerveja artesanal com notas cítricas de Mr. Clean da Irlanda vai aguentar passar um mês à base de macarrão e molho! Em três dias, se Coronaváirus bater à porta chamando pra jantar, o cara vai e ainda paga a conta. E ainda o pede em casamento pra pegar papel, afinal o “não” ele já tem, quem sabe não vem o “sim”.

A minha revolta é só com a quantidade de gente reclamando de ficar em casa sem fazer nada. Meu irmão, cê não tem vergonha não? Respeita quem sofre. Eu tô pedindo pelo amor de Deus pra me dar um tempo em casa sem fazer nada pra que eu arrume meus trem (“trem” de mineiro não tem plural), tem uns três armários aqui que se bobear a vó de Coronaváirus fez uma casinha de massapê lá no fundo dele há 50 anos e eu ainda não vi. Tô indo trabalhar todo dia, trancado dentro de uma empresa com um nerd que toma café parecendo menino tomando sopa, e o povo que tá em paz trabalhando de casa reclamando que não sabe ligar o computador na internet Bell Fibra Batman Superman 600 mil Megas que contratou pra ver Netiflícs. Vão se lascar, se eu for aí eu vou levar Coronaváirus pra lamber seu teclado! Cansei, vou curtir isolamento social na paz do Senhor, que é o melhor que tá tendo. Fazer curso de francês online.

Adeus, cinco letras que choram.

Sobre Cristiano de Oliveira (28 artigos)
Cristiano é mineiro, atleticano de passar mal, formado em Ciência da Computação no Brasil e pós-graduado em Marketing Management no Canadá. Foi colunista do jornal Brasil News por 12 anos. É um grande cronista do samba e das letras.

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