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Thanksgiving: Homenagem e homenageados à mesa


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The Walas’axa’, pintura de Wilhelm Kuhnert, que mostra uma cerimônia de potlatch de 1894, em British Columbia.

Rodrigo Toniol é colunista do Jornal de Toronto

Tão comum no hemisfério norte e tão alheio ao hemisfério sul, o Thanksgiving (Dia de Ação de Graças) nem sempre é fácil de ser incorporado pelos expatriados. Para assimilá-lo, terminamos considerando-o como um feriado familiar, algo similar ao Natal e à Páscoa, mas sua incorporação no cotidiano é quase artificial, daquele tipo de coisa que precisamos marcar na agenda para lembrar. A origem é repetida ad infinitum ao longo das semanas que o antecedem. Trata-se de uma festividade que marca o fim do período de colheitas. Em forma de agradecimento, é a ocasião para oferecer aos deuses uma festa com fartura de comida. Originalmente celebrada na Inglaterra, a data estabeleceu-se mesmo na tradição estadunidense e canadense a partir de meados do século XVII.

Essa versão oficial da origem da comemoração, que reafirma a Europa como fonte de todas as tradições do Novo Mundo, invisibiliza o fato de que esse tipo de celebração reverberou em práticas bastante comuns entre os próprios grupos nativos que habitavam a América do Norte antes da colonização. Especialmente na costa oeste do continente – e curiosamente também em algumas ilhas do Pacífico, próximas do atual território australiano –, grupos indígenas praticavam o ritual chamado “potlatch”. Trata-se de um ritual que geralmente envolvia um banquete com carne de foca ou salmão servido em homenagem a alguém. Não bastasse a comilança, a pessoa ou grupo que fazia a homenagem renunciava a todos os seus bens e os doava ao homenageado. A aparente irracionalidade da oferta deste ritual, que inclusive esteve proibido pelo governo canadense de 1884 até 1951, estava baseada na expectativa de que os bens doados circulariam novamente na celebração seguinte. De alguma maneira, era a renúncia que também garantia a bonança.

No território brasileiro, as populações nativas também tinham sua própria forma de celebrar a homenagem. Uma prática que também envolvia comida. Mas nesse caso não se tratava de oferecer comida, mas de comer o próprio celebrado. O canibalismo dos Tupinambás não era uma forma de detração dos inimigos, pelo contrário, era um desejo de comunhão, de incorporação das qualidades daquele sujeito: canibalizá-lo é tornar-se um pouco do outro. Há maior homenagem que se poderia fazer a um inimigo do que querer tornar-se ele próprio? Do lado de cá do hemisfério sul, o nosso Thanksgiving é antropofágico. Sempre é tempo de se lembrar do maior dilema filosófico posto pelos modernistas brasileiros, no manifesto de Oswald de Andrade: “Tupi or not tupi, that is the question”.

Sobre Rodrigo Toniol (8 artigos)
Rodrigo é doutor em antropologia e professor da Unicamp, tendo realizado estudos de pós-doutorado na Universidade de Utrecht (Holanda); foi também pesquisador-visitante nos Estados Unidos e México. Suas pesquisas e publicações estão principalmente relacionadas com os temas de religião, saúde e ciência.

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