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O cheiro do Natal


Memorial 2

A casa do meu avô.

Sérgio Taioli é psicólogo, especialista em Arte-Educação e mestre em Educação pela USP

À medida que eu ia crescendo, foi ficando claro, cada vez mais claro, que para mim o Natal tem “cheiro”.

O Natal é uma festa que no Brasil é bem colorida – ainda que se predomine as cores norte-americanas, ela é colorida. Mas o aroma do Natal para mim é especialmente peculiar. Um mês antes do dia 25 de dezembro é quando começava a festa, e o cenário era a casa do meu avô. Uma casa de Vila operária, com aquelas portas que dão para a rua, com um corredor comprido dando ligação aos quartos, a sala e, ao fundo, a cozinha, tendo acesso ao quintal. O quintal era sem dúvida o melhor. Um espaço maravilhoso e com incontáveis atrativos, entre plantas e caminhos que nos levava a vários nichos, dentre eles o barracão (oficina) de meu avô, a horta e os viveiros.

Como já disse, 30 dias antes da festa de Natal, que seria nesse espaço (o quintal), meu avô começava a prepará-lo. Esticava uma lona, que serviria de teto para quase toda a extensão do quintal, dessas de tecido grosso de brim. E começava um processo de olear, encerar essa lona com uma mistura de parafina, breu e cera de carnaúba. O processo todo levava alguns dias para se completar e eu o assistia com muito entusiasmo.

Meu avô.

Em princípio o odor dessa mistura seria horrível, se ela não tivesse vinculada a uma longa preparação, tanto do espaço físico como do que seria apresentado aos assíduos convidados no dia do Natal: a comida (uma obra de Arte), os arranjos dos talheres, a mesa, os presentes, a disposição dos pratos de doces prontos em cima do móvel da sala. E as cadeiras? Ah, as cadeiras! Estas são de um capítulo à parte. Meu avô poderia ser classificado como um artesão de sua própria vida. Ele a esculpia como um artista. Imagine alguém ganhando cadeiras, em geral velhas ou quebradas, das pessoas pelas quais ele realizava pequenos trabalhos caseiros – como limpeza de caixa d’água, consertos de assoalhos, trocas de telhas, que ele mesmo chamava esses servicinhos de “biscate”. Isso tudo quando ele não estava na fábrica, seu reduto de trabalho como carpinteiro.

Então, no Natal, era montada abaixo dessa lona uma grande mesa, para mais ou menos 30 pessoas, entre filhos, netos e amigos; sentávamos à frente dessa mesa, cada um de nós numa cadeira diferente.

As crônicas de Sérgio Taioli são parte da série chamada Memoriais.

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