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Meu aprendizado sobre a Arte

Apresentação da série Memoriais

Sérgio Taioli é psicólogo, especialista em Arte-Educação e mestre em Educação pela USP

Este trabalho tem sido a sequência de um estudo que já venho realizando em meu consultório de Psicologia e que, até então, eu não havia tido essa dimensão mais aprofundada do verdadeiro “incêndio” que eu iria causar com apenas algumas fagulhas de memórias, por vezes tão remotas, da minha própria existência.

Quando iniciei o trabalho em questão, não podia, ainda, perceber quanto material rico em imagens estavam latentes, e outras ainda se formando, no meu inconsciente. Imagens de percepções visuais, olfativas, auditivas que, ao mais simples movimento de trazê-las para o consciente, sob a forma de pensamento, foram tomando corpo e adquirindo vida, juntamente com a torrente de sentimentos e emoções que iam preenchendo as folhas do meu caderno, mais rápido do que eu podia escrever.

Eu já havia entrado em contato com vários livros em que a Psicologia se apropria da Arte, e vice-versa; porém, dois trabalhos foram decisivos: Arte e percepção visual, de Rudolf Arnheim, e a Leitura da imagem, de Ana Mae Barbosa, os quais, como um raio, um abrupto insight, fizeram com que esses dois universos, a Psicologia e a Arte, pudessem estar tão ligados e manter um sentido maior, mais amplo e direto, como até então eu não imaginaria essa união. Como dois planetas que se atraem até colidirem e daí então formarem um único corpo, muito mais forte e com mais propriedades, incitando respostas que fariam sentido tanto para a Arte quanto para a Psicologia. E mais, que a fusão dessas duas grandezas pudessem ser, assim como na Gestalt, tanto mais consistentes, maiores e completas, do que a soma das partes que a compõem.

Então aqui devo fazer um parêntese para me curvar e agradecer tanto ao método quanto à forma de como me foi passado “fazer” esse trabalho – na elaboração em si, pois nele se encerra toda a força propulsora de algumas de minhas reflexões; e também na busca de respostas, que há anos venho procurando para validar um caminho único entre a Psicologia e a Arte.

Ao final, devo salientar que, ao elaborar os Memoriais, foram clareando alguns conceitos de como se desenvolvem, tanto na Escola como na Família, nossas primeiras e principais socializações, e também as imagens e associações perceptivas de um paralelo entre o fazer aprendendo e o aprender fazendo. Numa leitura imagética, poderia dizer que, ao lançar uma boleadeira, uma das esferas se adianta impulsionando a outra, que por sua vez impulsiona a primeira, e assim por diante, até atingir o alvo, quando então estarão firmemente entrelaçadas, num atado sem nós.

Esta imagem encerra a profundidade da relação triangular de ensino, onde o fazer artístico propõe uma leitura do feito e a esta um outro fazer, tudo dentro de um contexto.

Os relatos apresentados aqui não mantêm nenhuma ordem cronológica dos fatos, nem tempo linear. São relatados da forma como eu “recebi”. Ainda que de uma forma caseira e aleatória, guardam a profundidade de como os valores, o ensino formal e o informal, a dinâmica, vão fruindo osmoticamente, tanto na criança como no adulto, e esse processo alimenta um repensar, num convite à reflexão sobre o que é ensinar e o que é aprender.