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Os desafios das mulheres no mercado de trabalho


Pesquisa realizada no Rio de Janeiro e em Montreal revela como Brasil e Canadá lidam com a equidade de gênero.

Nathalie Daoust, na conferência Doing Business in Brazil, realizado pela Brazil-Canada Chamber of Commerce, em Toronto.

Érica Bernardo é jornalista e ex executiva de comunicação

[BCCC]

Equidade de gênero e mercado de trabalho são dois elementos que ainda não entraram em consonância, mesmo com a virada do século. Apesar do fortalecimento do feminismo e do engajamento de mulheres na luta por direitos iguais, elas ainda trabalham mais que os homens, ganham menos que eles – embora estudem mais – e são penalizadas pelo fato de poderem engravidar. Essa é a conclusão do estudo realizado pela organização não-governamental Business Professional Women (BPW) com mulheres que atuam em Montreal e no Rio do Janeiro. Originalmente intitulado Study on Feminine Economic Empowerment Executive Summary, o relatório, apresentado em outubro na conferência Doing Business in Brazil, da Brazil-Canada Chamber of Commerce (BCCC), mostra similaridades e diferenças entre o universo profissional de mulheres nas duas cidades.

Segundo o estudo, brasileiras e canadenses vivenciam os mesmos desafios, mas com alguma variação em aspectos relativos à participação delas no trabalho doméstico, horas trabalhadas, sucesso profissional, remuneração justa e maternidade. Esses fatores têm relação direta com a adoção de políticas regulatórias pelos respectivos países, além da percepção cultural do papel da mulher e do nível de engajamento feminino em movimentos de inclusão social. Ou seja, quanto mais maduro o país estiver em políticas de equidade de gênero, menos disparidades haverá.

O Canadá apresenta um cenário mais favorável às mulheres que o Brasil, ainda que no ranking do Fórum Econômico Mundial ocupe a distante 16a posição na lista de países com progressos na igualdade de gênero – perdendo para a Islândia, que ocupa o primeiro lugar. O Brasil aparece na 90a posição, pela carência de leis e acesso à educação. Já o Canadá, possui leis que regulamentam as diferenças de gênero no trabalho, com padrões mínimos de equidade, respeito e segurança contra assédio sexual. Tudo isso resulta na maior presença de mulheres em cargos de liderança. No Canadá, as executivas representam 41%, contra 16% no Brasil.

Outra diferença básica é que o Brasil ainda é bastante patriarcal. Tem o maior número de trabalhadoras domésticas do mundo, e é onde mulheres trabalham semanalmente mais que homens nas empresas – acima de 50 horas. As brasileiras também gerenciam times maiores que as canadenses e dedicam mais horas às tarefas domésticas e familiares (trabalham 73% a mais que os homens).

O patriarcalismo também impacta as escolhas profissionais das brasileiras. De acordo com a BPW, apenas 42% das mulheres trabalham em tempo integral no Rio de Janeiro. Em Montreal, as profissionais de tempo integral representam 67%. Os índices estão relacionados à condição feminina de ter que escolher entre carreira e vida familiar, já que postos mais altos exigem mais tempo de trabalho e estudo. Se esse parece ser o único caminho, a líder do Projeto Brasil na BPW, Nathalie Daoust, aconselha: “Não trabalhe mais horas, analise mais. Desenvolva uma estratégia. Através de mentoring e networking a mulher tem melhores chances de promoção. A educação importa, mas a rede sela o acordo. Dito isto, é claro que as leis ou regulamentos sobre equidade no local de trabalho são essenciais, e é papel da BPW promovê-las”, diz.

Por fim, os salários são outra diferença apontada pelo estudo. No Brasil, os rendimentos das mulheres são 42% mais baixos que dos homens, e caem outros 35% se a mulher for negra ou mestiça. Em Montreal, o déficit gira em torno de 28%, sendo que para as imigrantes essa diferença pode chegar a 35,5%.

Até aqui, nenhuma novidade. Lá ou cá, a equidade está longe de acontecer. Contudo, o mais intrigante é saber que, no Brasil, apenas 42% das mulheres entrevistadas percebem essas diferenças de salário, enquanto que no Canadá 61% estão mais atentas a essa questão. Isso, sim, é para se pensar.

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