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O bufão do norte


Ele já mostrou que vai atingir seus objetivos de forma autoritária e sem base em estudos e consulta pública.

O governador de Ontário Doug Ford. Foto: Alex Guibord.

Erika Sendra Tavares é cientista no SickKids Toronto

Ontário elegeu Doug Ford como líder da Província no final de junho – o irmão mais velho do prefeito Rob Ford, que ficou conhecido mundialmente por fumar crack e dirigir embriagado durante o mandato. Não dá para evitar o paralelo com o Trump. O discurso de ambos falha em conteúdo intelectual, tem forte conotação populista-fundamentalista e pouca fidelidade com a verdade. Ford conquistou um governo de maioria com 76 dos 124 assentos no parlamento, com a promessa de reduzir impostos, repelir o incentivo econômico para diminuição da poluição (programa Cap-and-trade), diminuir os gastos públicos e aumentar o acesso às bebidas alcoólicas. 

Nos primeiros quatro meses, ele já mostrou que vai atingir os objetivos dele de forma autoritária e sem base em estudos e consulta pública – algo que já se reflete nas ações legais acumuladas diariamente contra seu governo. Começou cancelando o Cap-and-trade e, como parte disso, um investimento de $100 milhões para infraestrutura das escolas públicas. Esse investimento seria usado para consertar janelas, melhorar a iluminação e os sistemas de ar condicionado. Até o momento, não apresentou nenhuma iniciativa substituta.

Ainda na Educação, Ford também repeliu o currículo sexual, em vigor desde 2015, o qual introduzia conceitos básicos de sexualidade, diversidade em relacionamentos e, principalmente, consentimento sexual. Essa atitude mobilizou vários pais, professores e até religiosos, que argumentam que o currículo de 2015 foi um dos mais bem consultados do mundo. Esse currículo está sendo substituído por uma versão de 20 anos atrás, que não reflete a realidade na qual os estudantes vivem hoje e reforça a marginalização de muitos membros da sociedade. Além disso, ele criou uma linha-dedo-duro para pais entregarem professores que eventualmente se recusem a cumprir o currículo antigo – uma forma autoritária que ignora o diálogo e a diplomacia correntes na comunidade escolar.

Em um dos movimentos mais antidemocráticos do seu ainda novo mandato, Ford cortou o Conselho de representantes de Toronto pela metade, de 47 acentos para 25, que já foi implementada na eleição de outubro, apesar da resistência dos moradores de Toronto, do veto inicial pelo poder judiciário e da oposição pelo Toronto District School Board. De acordo com uma pesquisa realizada pela agência Mainstreet, 65% dos moradores de Toronto discordam da diminuição do conselho municipal. O impacto negativo também será refletido nas escolas públicas e católicas.

Mas prioridades são prioridades, e a de Ford é claramente o projeto Buck-a-beer, que oferece incentivos de mercado para cervejarias que conseguirem reduzir o preço da lata para 1 dólar canadense.

Ao que parece, os quatro anos mais lentos de Ontário estão só começando.

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