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Estamos preparados para o presente?


Mudou, nos últimos anos, o perfil do brasileiro que vem para o Canadá.

Escadaria Selarón, no Rio de Janeiro.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

O fato da comunidade brasileira na província de Ontário ter mais do que duplicado de tamanho em apenas quatro anos, como mostram os números recém-apresentados pelo Consulado-Geral do Brasil em Toronto, deveria acender um sinal de alerta para os governos do Brasil – e também para nós mesmos, comunidade que vive aqui, analisarmos e tomarmos atitudes urgentes perante esta nova realidade que não se projeta mais para o futuro, mas que, pelo contrário, já é o nosso presente, sem que muitos de nós tenham se dado conta.

Para trás ficam perspectivas correntes do século 20, em que o sonho de imigração brasileiro era para os Estados Unidos e, complementarmente, a Europa e, para os descendentes nipônicos, o Japão. Com os países europeus fechando-se para imigrantes e, como a cereja do bolo, a eleição de Trump nos Estados Unidos, o Canadá deixou de ser um coadjuvante distante, frio e exótico entre os brasileiros dispostos a tentarem uma nova vida no exterior, para se tornar praticamente o ator principal, com sua receptividade a processos de imigração – algo raríssimo no mundo de hoje.

Mudou também, nos últimos anos, o perfil do brasileiro que vem para o Canadá. Se o primeiro grande grupo pioneiro, de 1987, considerado o início oficial da imigração brasileira para o Canadá, aproveitou-se dos últimos dias antes de ser exigido visto para entrar, desde então é preciso ser aprovado no rígido processo do Consulado do Canadá, até mesmo para um simples visto de turista, o que coloca os requerentes em um funil por onde só passa os que pertencem, ao menos, à classe média.

Na virada do milênio, o Canadá passou a ser o foco principal dos estudantes brasileiros que buscam um aperfeiçoamento no exterior, seja para um curso superior, de pós-graduação ou apenas um curso de inglês, ao oferecer, pelo câmbio, custos mais atrativos do que os Estados Unidos e Europa, e, pela distância, uma passagem aérea bem mais barata do que para a Austrália, por exemplo. Além disso, o Canadá e seus habitantes, por serem oriundos do mundo inteiro, sempre se mostraram mais solícitos e pacientes com estrangeiros, seus sotaques e costumes. Assim, há 13 anos o Canadá é o país que mais recebe estudantes do Brasil.

Com o Brasil naufragado em mais uma crise, onde o presidente Temer tem apenas 3% de aprovação, e com pesquisa do Datafolha indicando que 62% dos jovens iriam embora do país se pudessem, o Canadá tem aproveitado essa oportunidade para conceder a imigração a profissionais qualificados, através de seus 60 programas para este fim, sendo o principal deles o Express Entry. O Brasil está figurando no Top 30 do ranking das nacionalidades que mais conseguiram se tornar residentes permanentes no país, entre 2010 e 2016.

A chegada em massa de brasileiros aprovados pelo Canadá, entre estudantes e imigrantes, é sentida pelo Consulado de Toronto, que precisou contratar mais dois funcionários, duplicar sua área de recepção, e que, pela primeira vez, terá que organizar as eleições brasileiras em uma escola, ao invés de suas próprias instalações, como ocorreu desde que foi criado, nos anos 1970. Mesmo assim, é pouco para fazer frente ao crescimento da comunidade brasileira nos últimos quatro anos.

Os brasileiros não parecem perceber a nova realidade, e ainda não conseguem se organizar como comunidade, nem demonstrar sua representatividade junto ao Canadá. Tivemos, na verdade, até retrocessos, em termos associativos, nos últimos anos; e também ainda parece difícil estimular empresários a apoiar as iniciativas culturais da comunidade, ou instalarem novos negócios, simplesmente pela falta de apoio dos próprios brasileiros, que muitas vezes não prestigiam eventos e produtos da comunidade.

Nossa comunidade não pode se portar como uma massa disforme, heterogênea e anônima – exceto em jogos da seleção na Copa do Mundo. Agora somos muitos e não podemos perder o bonde da história, é preciso olhar para o nosso presente aqui. A hora é agora.

Sobre José Francisco Schuster (18 artigos)
Com mais de 35 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Foi, durante 8 anos, âncora do programa "Fala, Brasil", e agora produz e apresenta o programa "Noites da CHIN - Brasil", na CHIN Radio.

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