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Você não me representa


Deveríamos ter muito equilíbrio na hora de escolher quem nos representa politicamente.

Ilustração de Mustafa Kucuk.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

Uma das grandes causas que impede que tenhamos um mundo melhor é o pavio curto do ser humano. Temos a tendência de resolver tudo no calor do momento, na impulsividade, sem parar para refletir um segundo sequer, e tomamos atitudes drásticas, que chegam a ser irreversíveis, e até fatais. É assim que, nas redes sociais e até na imprensa, viralizam fake news, pois poucos dão-se ao trabalho de examinar por um momento se o fato é verídico, antes de passá-lo adiante. Poucos têm o discernimento do policial de Toronto, que conseguiu prender um perturbado mental – que atropelou e matou com uma van 10 pessoas e feriu outras 16 – sem disparar um tiro, ao contrário do que seria o comum nos Estados Unidos e no Brasil, onde certamente terminaria com morte.

Esse pavio curto impede que nos demos conta de quem está do nosso lado, de quem efetivamente nos representa. Se encontramos uma fruta estragada em uma sacola de orgânicos, já queremos rodar a baiana e voltar a consumir os produtos com agrotóxicos, sempre perfeitinhos. Se o personal trainer força um pouco mais em um exercício, nos revoltamos e decidimos voltar à vida sedentária. Se os pais forçam o filho a estudar para a prova de amanhã, eles são os bandidos da fita, bonzinhos são os amigos que estão insistindo pra largar tudo e ir pra balada. Não nos damos conta, enfim, de quem está do nosso lado, tentando nos ajudar; e não perdoamos o mínimo erro que cometam, esquecendo-se de que são humanos. Preferimos radicalizar e passar para o outro time, daqueles que se fazem de amigos mas que estão, na verdade, querendo nos cravar pelas costas.

Deveríamos ter muito equilíbrio, portanto, na hora de escolher quem nos representa politicamente, pois os rumos de uma cidade, de um estado ou província, e de um país, mexem com o rumo de nossas próprias vidas e com o nosso destino. Sem uma análise com senso crítico – e os políticos apoiam a educação o mínimo possível, para que ele não se desenvolva em grandes camadas da população –, muitos acabam votando no político mais bonitão, com melhor oratória, que faz as promessas mais mirabolantes, que faz pose de super-heroi, ou até que, na cara-de-pau, se propõe a comprar seu voto.

É necessário que entendamos que existem apenas dois motivos que fazem uma pessoa se tornar um político – e é por isso que você, eu e a maioria das pessoas nunca pensou em candidatar-se a nada: ou é um líder nato, dotado de senso altruísta, alguém que realmente quer o bem da comunidade, ou é mais um clone de Justo Veríssimo, o personagem de Chico Anysio que, como político, confessava que “eu quero é me fazer” e “quero que pobre se exploda”.

Deveria gerar uma desconfiança natural, portanto, a candidatura de quem nunca foi líder sequer como síndico de edifício. Frequentes são os casos de candidatos que saem do nada, beneficiados apenas por uma grande exposição na mídia pelo seu trabalho anterior, como comediante, jogador de futebol, cantor ou servidor público graduado. Outros são assediados pelos partidos simplesmente porque podem aportar um grande volume financeiro para a campanha eleitoral, graças a seu poderio econômico, não importa o quão vazios de propostas sejam.

Justo Veríssimo, personagem de Chico Anysio, numa charge de Veronezi.

É inebriados por campanhas eleitorais pomposas, às quais se soma o apoio da imprensa amiga, que muitos votam nos Justos Veríssimos que aparecem a cada eleição, que buscarão apenas tomar o poder – e não sair dele –, beneficiando-se a si próprios e a seu grupelho o máximo possível, seja legal ou ilegalmente, não ligando a mínima para o interesse público. Cortam, sem dó, a assistência social para quem está abaixo da linha da pobreza para, poder reduzir os impostos dos amigos multimilionários. Os candidatos do bem encaram uma luta de Davi contra Golias.

Ao não verificarmos e votarmos em quem efetivamente nos representa é que o mundo enfrenta ciclos de retrocesso político, enquanto o natural seria que, a cada eleição, tivéssemos candidatos e propostas cada vez melhores. Irritados com os pequenos defeitos dos candidatos do bem, e com a maciça propaganda dos poderosos Justos Veríssimos, caímos em retrocessos muito mais destrutivos do que os poucos avanços que os candidatos bem intencionados obtiveram na gestão anterior. Em ano de eleições no Canadá e no Brasil, portanto, deixemos as atitudes passionais de lado para perguntarmos a nós próprios quem representa nossos ideais e quem é um Cavalo de Troia.

Sobre José Francisco Schuster (12 artigos)
Com mais de 35 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Foi, durante 8 anos, âncora do programa "Fala, Brasil", e agora produz e apresenta o programa "Noites da CHIN - Brasil", na CHIN Radio.

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