Mas, por que eu não posso traduzir?

Quando me mudei para o Brasil, eu acreditava que a única maneira de aprender uma nova língua era nunca traduzir.

[English version]

Emma Sheppard é escritora e professora de inglês

Quando me mudei para o Brasil, eu acreditava – porque eu sempre repetia isso – que a única maneira de aprender uma nova língua era nunca traduzir, para assim poder ensinar e aprender estando completamente imerso no inglês, se essa era a língua que você estava tentando aprender. Durante o tempo que fui professora de inglês no Brasil, aprendi – enquanto lutava com explicações de gramática que eu mal conseguia entender – que essa regra não era tão sagrada quanto eu pensava, pois havia buracos nela. Houve momentos em que passar para o português tornava a aprendizagem melhor, não pior.

Mas também aprendi, por experiência própria, que há limites para a tradução – como perda de significado e expressões que você não consegue entender quando traduzidas. Nos primeiros seis meses, toda vez que um aluno me dizia “te acalma”, enquanto esperava pelo seu dever de casa, eu ficava ofendida. Aquilo que deveria ser alegre em sua língua sempre soava rude na minha. E, claro, tinha também o fato da metade dos meus alunos – quase todos adolescentes – me chamarem de “tia”, apesar de eu realmente não fazer parte da família deles. Ninguém conseguia me explicar isso também, só diziam “é assim que a gente fala”.

Quando voltei para o Canadá, foi minha vez de ajudar os estudantes a navegar pelos pequenos detalhes do inglês, que eu não tinha percebido serem difíceis até aquele momento, mesmo já tendo explicado aquilo pela décima vez. Coisas como o fato de não poder dizer “good night” quando se cumprimenta alguém, ou “congratulations” pelo aniversário da pessoa. Ou como soa estranho quando ouço alguém dizer “thanks God” em vez de “thank God” – tão estranho que sempre me faz rir, mesmo sabendo que não deveria.

Depois de tantos anos aprendendo português e ensinando inglês, me dei conta de que são os pequenos detalhes da língua os mais frustrantes de se aprender, justamente aqueles que mais nos ajudariam a soar como se estivéssemos realmente confiantes em nosso novo idioma. E essas são as coisas que a tradução não consegue nos ajudar, que conquistamos somente através da escuta, da tentativa, e através da nossa imersão em nossos novos mundos. “Te acalma”, você vai chegar lá.

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