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Transporte coletivo precisa ser priorizado


É necessário desfazer este círculo vicioso que beneficia o uso de veículos particulares.

King Street, em Toronto. Foto: Rafael Salsa Correa.

José Francisco Schuster é colunista do Jornal de Toronto

O projeto piloto da prefeitura de Toronto para priorizar o transporte coletivo na King Street, no seu trecho do centro da cidade (entre a Bathurst Street e a Jarvis Street), implantado em 12 de novembro passado, tem feito com que comerciantes da área aleguem redução em seus negócios, já que o estacionamento foi impedido. Isso que por ali passa o streetcar (bonde) da King – a terceira linha de transporte coletivo mais importante da cidade, com mais de 65 mil passageiros por dia, atrás apenas das linhas 1 (amarela) e 2 (verde) do metrô. Só que os engarrafamentos faziam com que, às vezes, caminhar fosse mais rápido do que usar os bondes.

O problema não é específico da King Street: empresários e profissionais brasileiros em Toronto, como Angela Mesquita (Brasil Remittance), Carlos Dornelas (tesoureiro da Dundas Street West Business Improvement Area) e a Dra. Veronica Yoshiura revelaram que o número de seus clientes que usam carro vai de 40% a mais da metade.

É de se questionar por que existe esta resistência em trocar o veículo particular pelo transporte público, mesmo em uma cidade cujo transporte coletivo recebeu o título de melhor agência de trânsito da América do Norte. Há que se reconhecer que o TTC acaba de ampliar a linha amarela do metrô em sete paradas, fazendo com que se possa chegar, pela primeira vez, a uma cidade da região metropolitana de Toronto, Vaughan. O problema é que quem depende do TTC sabe que muitas vezes o serviço deixa bastante a desejar, especialmente na hora do rush, com atrasos, superlotação, passageiros sendo deixados para trás nas paradas porque não há mais espaço, metrôs parados no meio dos túneis e a lentidão dos bondes. Também há questões como a raridade de transporte na madrugada (o serviço chamado blue night), fazendo com que o retorno para casa do trabalho ou do bar seja demorado e cansativo.

King Street, em Toronto. Foto: Rafael Salsa Correa.

O TTC certamente justificará que não tem recursos suficientes, apesar de receber subsídios dos três níveis de governo (federal, provincial e municipal), além da venda de passagens e de publicidade. Há sempre a pressão para equilibrar as contas. Já nas cidades onde o transporte público é delegado pelo governo a empresas privadas, como é regra no Brasil, é natural os empresários tentarem obter o máximo de passageiros com o mínimo de custo, ou seja, reduzindo a oferta de transporte. Essa mentalidade faz com que em Porto Alegre, por exemplo, o número de passageiros do transporte coletivo decline ano após ano, enquanto a população cresce.

Todavia, é necessário urgentemente desfazer este círculo vicioso que beneficia o uso de veículos particulares. Os automóveis são reconhecidamente um dos maiores problemas ambientais do mundo, com suas descargas lançando ininterruptamente milhões de toneladas de poluentes na atmosfera e contribuindo decisivamente para o aquecimento global. A par disso, já se torna um meio de transporte ineficiente, na medida em que se chegou a um nível de saturação das ruas e rodovias, com engarrafamentos absurdos, como o da King Street, onde tudo simplesmente pára.

Com a indústria automobilística junto com a de combustíveis estando entre as mais poderosas do mundo, é difícil de os governos tomarem atitudes sérias e drásticas para enfrentar o problema, virando a mesa e apostando maciçamente no transporte público. É urgente, contudo, deixar a era dos salões do automóvel para trás (acaba de ocorrer mais um em Toronto) e focar no transporte de massa como a única alternativa ecologicamente viável e capaz de deslocar com velocidade razoável populações crescentes condensadas em áreas urbanas cada vez mais verticalizadas. A viabilidade financeira virá justamente a medida que o usuário ver que vale a pena abandonar o carro porque chegará a seu destino a tempo e sem passar desconforto.

Como matéria complementar, assista a entrevista de Camila Garcia com a urbanista Vivian Gomes, no programa Focus Portuguese:

Sobre José Francisco Schuster (15 artigos)
Com mais de 35 anos de experiência como jornalista, Schuster atuou em grandes jornais, revistas, emissoras de rádio e TV no Brasil. Foi, durante 8 anos, âncora do programa "Fala, Brasil", e agora produz e apresenta o programa "Noites da CHIN - Brasil", na CHIN Radio.

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